14/06/2015 11h24 - Atualizado em 14/06/2015 11h24

Eike Batista entra na mira da CPI da Petrobras

Foto: Yasuyoshi Chiba (AFP)
Foto: Yasuyoshi Chiba (AFP)

Com aparições restritas a raríssimas entrevistas, o ex-bilionário e hoje recolhido empresário Eike Batista deve logo voltar aos holofotes: corre na CPI da Petrobras um requerimento para que ele seja convocado a depor sobre conexões mal explicadas de seus negócios com o manjadíssimo enredo das consultorias ligadas a grão-petistas que faturaram alto para facilitar contratos milionários com dinheiro público. No caso de Eike, as suspeitas se voltam para as circunstâncias em que o consórcio Integra – constituído por sua empresa de estaleiros, a OSX (em recuperação judicial), e pela construtora Mendes Júnior (já enrolada no petrolão) – venceu a concorrência para a fabricação de duas plataformas de petróleo para a Petrobras, a P-67 e a P-70. Preço: 900 milhões de reais cada uma. Com as obras se arrastando, até hoje não ficaram prontas.

O Integra abocanhou o contrato em agosto de 2012. Meses depois, foi sua vez de contratar – pagou comissão de 4,5% da quantia citada no acordo, ou 6 milhões de reais, a uma empresa de consultoria, a Isolux/Tecna. O trabalho consistia em fazer um levantamento de fornecedores que oferecessem certos produtos a preços que coubessem no orçamento de 132 milhões de reais. Ocorre que a Isolux/Tecna recebeu sua comissão, mas não prestou serviço algum – fato confirmado a VEJA por dois ex-executivos do consórcio. É justamente para esclarecer se existe algum vínculo irregular entre os dois negócios que o deputado Altineu Côrtes (PR-RJ) apresentou o requerimento de convocação de Eike à CPI. No repertório de dúvidas, o som de moedas tilintando se acentua quando se sabe que o diretor da Isolux, Júlio Oliveira Silva, é ligadíssimo a um personagem bastante conhecido dos investigadores da Operação Lava-Jato – o ex-ministro da Casa Civil José Dirceu, que recebeu entre 2006 (um ano após deixar o governo Lula) e 2013, segundo se comprovou até agora, 29 milhões de reais em consultorias a clientes como as empreiteiras OAS, UTC, Engevix, Galvão Engenharia e Camargo Corrêa, todas enredadas no esquema de corrupção da Petrobras. Tão ligados são os dois que, no mundo do lobby brasiliense, Silva é chamado de Júlio do Zé Dirceu.

Quando negociou pela Isolux o contrato com o Integra de Eike, em 2013, o sergipano Silva era ao mesmo tempo sócio de Dirceu em outra firma, a JD Consultoria. Movimento típico das voltas que a máquina petista dá, na mesma Isolux prestava serviços a ex-ministra chefe da Casa Civil Erenice Guerra. E no Palácio do Planalto, por onde tanto Erenice como José Dirceu já haviam passado, ainda batia ponto na época a mulher de Silva, Antonieta, como funcionária da Secretaria-Geral da Presidência. Procurados, nem Eike, nem o consórcio Integra, nem a Petrobras quiseram se manifestar. Já a Isolux informou que Júlio Silva cuida exclusivamente de temas comerciais e nunca teve ligação direta com os contratos envolvendo o consórcio das plataformas. Mas teve, sim: VEJA obteve e-mails que detalham negociações entre a Isolux e o Integra, e Silva aparece lá, copiado nas mensagens.

Ex-funcionário do Serpro, o serviço de processamento de dados do governo federal, Júlio Silva trabalhou por anos em Brasília como representante de uma multinacional de informática. Na função, selava contratos com o setor público, e se aproximou de petistas importantes. Em 2009, largou tudo para virar “consultor de negócios” – um eufemismo para lobista – de Dirceu. Eventualmente, tornou-se sócio na JD e passou a ser assediado por todos os que buscavam desatar nós com o governo. Nó era o que não faltava à OSX de Eike, projetada para atender a uma demanda nunca concretizada de navios por parte da petroleira do empresário, a OGX – daí a importância da encomenda da Petrobras para a sua sobrevivência. Na CPI, os sócios do Integra vão ter de explicar exatamente como venceram a concorrência, por que contrataram a consultoria de Júlio Silva e que tipo de serviço, afinal, a Isolux prestou. Tão falante no passado, é pouco provável que Eike Batista, desta vez, se sinta à vontade diante das questões que lhe serão feitas no Congresso.

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