17/10/2015 14h44 - Atualizado em 17/10/2015 14h44

American Horror Story: quando os círculos do Inferno de Dante sobem a Terra

A Divina Comédia é uma das mais importantes obras para a literatura universal.
Ilustração: Eric Lima
Ilustração: Eric Lima

Considerado um dos maiores, senão o maior, poema já escrito no lado oeste do mundo e uma relíquia literária para a cultura italiana, A Divina Comédia, de Dante Alighieri, é uma das mais importantes obras para a literatura universal. Dividida em três partes, Inferno, Purgatório e Paraíso, os versos, organizados em cantos, narram a jornada épica do autor/personagem através dessas três instâncias do mundo espiritual, mas é o primeiro capítulo dessa viagem que goza de maior popularidade.

Publicado no século XIV pelo autor florentino, o Inferno foca-se na angústia de Dante por ter visto morrer sua amada Beatriz. Perdido na própria dor, Dante vaga pelas bases de um morro, onde animais famintos tentam devorá-lo, mas o poeta Virgílio, a quem o personagem sempre admirara, surge para dar-lhe a mão e um recado: Beatriz, serva do Paraíso, o chama para junto dela, pois seu desespero tocara o próprio céu, mas para chegar ao destino final, deverá passar antes pelas esferas do Inferno.

Tomado sob a proteção de Virgílio, Dante aceita a viagem e adentra as cavidades da Terra, em cujos abismos infernais presencia o castigo que a justiça divina atribui a cada pecado: aos que foram insossos em vida, nem bons nem maus, cabe o desespero de afogar-se eternamente às margens do rio Aqueronte, os que tiraram a própria vida engrossam com o Bosque dos Suicidas, os violentos jazem ardendo no rio Flegeton, cuja corrente é feita de sangue fervente, e os que traíram parentes ou negaram a Deus, é reservado o Cocito, o lago de gelo, no qual Lúcifer, também com metade do corpo congelada, devora com suas três bocas Judas, Cássio e Bruto, notórios traidores, e por aí vai.

A geografia do Inferno descrita por Dante é, para mim, uma coisa realmente interessante: os tormentos se organizam em um labirinto circular, que desce sempre, nove círculos destinados a receber eternamente os pecadores, dos quais cinco formam o Alto Inferno, e os demais compõem o Baixo Inferno. O oitavo inferno ainda se reparte em dez fossos e o nono em quatro esferas, na qual a última é preenchida pelo Cocito. Para Dante, o Inferno é um lugar de camadas, núcleos que cobrem uns aos outros e desembocam inevitavelmente na sombria estrada da danação na qual os espíritos atormentados se tornam também demônios do castigo, um labirinto sem luz ou piedade cujo fim não é outro senão a boca do diabo.

Tendo isso em mente, acompanhar American Horror Story, a aclamada série do canal FX dirigida por Ryan Murphy, é, dizendo o mínimo, um momento Capitão América de “Entendi a referência!”. Assistindo ao episódio de estreia da quinta temporada, batizada de Hotel (2015), na última semana, observada com olhos duros quase que unicamente pelo fato de incluir a performer Lady Gaga em seu elenco, me veio a mente que, após suas duas últimas temporadas sofrerem com uma recepção fria de público e crítica, os produtores tenham voltado à premissa original que guiou as duas primeiras temporadas, consideradas as de maior sucesso. E me arrisco a dizer que há muito do Inferno de Dante nessa premissa.

A temporada de estreia, Murder House (2011), contou a história da família Harmon: o pai, Ben (Dylan McDermott), psiquiatra e marido infiel, a mãe, Vivien (Connie Britton), e a filha Violet (Taissa Farmiga), uma jovem introvertida que sofre com o conflito entre os pais. A fim de reestruturar sua família, Ben a leva para morar em uma casa nova, de estilo clássico e com um preço baixíssimo. Em uma série com Horror no nome, desnecessário dizer que é uma decisão ruim, pois a casa tem um histórico longo de assassinatos violentos em suas dependências, e os espíritos das vítimas (e assassinos) acabam forçados a vagar eternamente entre uma parede e outra, repetindo sempre o drama e a tragédia que lhes seguiram em vida.

Os Harmon passam, assim, também a sofrer com mais intensidade a própria ruína, perseguidos pelos inúmeros fantasmas vingativos e pesarosos que padeceram na casa, entre eles Tate (Evan Peters), um jovem assassino em massa que serve como principal algoz da família Harmon, desafiando o juízo de Ben, violentando Vivien e seduzindo Violet e levando-a ao suicídio. Acompanhando os Harmon e por vezes fazendo-os se perder na obscuridade da casa, temos a vizinha Constance (vivida pela gloriosa Jessica Lange, quase a Fernanda Montenegro do FX), a mãe ainda viva de Tate que deseja tomar a casa para si a todo custo.

Em Murder House, vemos mais ou menos uma viagem como aquela feita por Dante: cada cômodo da casa pode ser compreendido como um círculo ou fosso infernal, cada um com a memória de uma barbaridade diferente, cada um com espíritos sofrendo pela falta que cometeram em vida e destinadas a castigar outras almas pelo mesmo motivo. Os Harmon, assim como Dante, além de serem atormentados pelos moradores desse inferno, são testemunhas da desgraça dos espíritos que lhes querem mal, ou de almas que apenas lamentam a sina a que foram submetidas, todos eles, vivos e mortos, presos em uma casa labiríntica, inescapável, cujo fluxo de maldade e horror sempre desce e se acumula no porão, a parte mais baixa, raiz de todo o mal, onde os primeiros assassinos ainda residem junto a Tate, o jovem demoníaco que, combinando os horrores da violência, do sexo e da manipulação, devora o juízo dos três Harmon.

Virgílio estaria representado, ainda que de forma invertida, em Constance, levando-os através do inferno, mas não os guiando para luz, pois deseja tomar-lhes tudo, ou ainda em Moira (Frances Conroy), o espírito da empregada que de fato deseja o melhor para os Harmon, driblando a maldade de Constance e dos fantasmas rancorosos para ajudar a família.

Seguindo uma estrutura semelhante, temos a temporada sucessora, Asylum (2012), que fala sobre os horrores que os pacientes do sanatório Briarcliff sofrem na instituição. Menos coerente que Murder House, Asylum padece de uma sensível falta de coesão narrativa, mas os horrores infernais ainda estão lá: a jornalista Lana Winters (Sara Paulson), institucionalizada por ser lésbica, é testemunha das atrocidades cometidas contra cada interno em Briarcliff, e até o definhar de pacientes nem tão insanos assim. Cada cela funciona como um dos cômodos da temporada interior, e cada residente corresponde a um espírito assassinado ou assassino de Murder House. O porão, local onde experiências sinistras são realizadas com os pacientes de Briarcliff, é palco das maquinações da irmã Mary Eunice (Lily Rabe), uma adorável e inocente freira que acaba possuída por um demônio, que em parceria com os doutores Arthur Arden (James Cromwell), um nazista inescrupuloso, e Oliver Thredson (Zachary Quinto), um assassino serial, servem como o demônio tríplice luciferiano de Asylum.

Mas é acompanhando a irmã Jude (Jessica Lange) que vemos o melhor e mais dantesco de Asylum. A freira com mão de ferro começa como a gerente de Briarcliff, ela mesma responsável por cada tormento infligido contra os pacientes e usando da religião para se justificar, como um demônio punidor a serviço da justiça divina, como tantos que vemos nos versos d’ A Divina Comédia, mas quando ela se torna prisioneira de Mary Eunice é quando vemos um desenvolvimento espiritual na série, e um bem maior que qualquer narrativa em Murder House: Jude é desprovida de toda sua autoridade, subjugada ao sistema desumano que ela mesma defendia, e, tratada como louca, perde sua sanidade, e de demônio passa a alma penada, sofrida, vencida, bem como Dante no início de seu poema, mas, diferente dele, Jude se tornou prisioneira no inferno do qual era responsável, cabendo a Kit Walker (Evan Peters), outro paciente que ela ajudou a trazer para o manicômio, guiá-la para, literalmente, fora dos círculos subterrâneos de Briarcliff nos quais era mantida como um animal.

A atual temporada, Hotel, volta a desenvolver o espaço de sua narrativa em um labirinto, o hotel Cortez, e o que o primeiro episódio transpareceu é que a estrutura dantesca será a pedida desse ano mais uma vez. Demônios já foram vistos no quarto 64, e uma certa condessa viciada em moda e em beber sangue governa o lugar, mas fica a pergunta se teremos um bom aprofundamento narrativo nessa temporada, como o relacionamento familiar dos Harmon ou a regeneração espiritual de Jude, mais essenciais nas comparações com o drama de Dante do que questões geográficas, uma vez que a estreia focou mais em estética do que em contar uma história que nos toque. Resta esperar, já que a temporada abordará vícios e punição, duas temáticas bem condizentes com os trajetos do Inferno.

Contudo, é fato que o clássico universal escrito por Dante continua em voga, e vê-lo traduzido para a cultura pop por meio de uma série como American Horror Story é a prova do poder que os clássicos têm de assumir novas formas, novas roupagens e de se reconfigurar como narrativa. Esse é o poder de evolução que histórias como a Comédia detêm, que, mais que relíquias em um museu cultural, acabam por se tornar uma força inspiradora, capaz de influenciar gerações posteriores conforme demanda as necessidades de consumo de uma sociedade. Se isso é feito de forma competente ou não, acaba por ser assunto para outro texto, e não garanto que meu, mas que uma obra tão importante se mantém viva e ativa com tanto vigor, isso sim é digno de nota.

*** Se você é a favor de uma imprensa totalmente livre e imparcial, colabore curtindo a nossa página no Facebook e visitando com frequência o AM POST.

Ultimas notícias

Contato Termos de uso Wp: (92) 99344-0505