25/11/2015 14h15 - Atualizado em 25/11/2015 14h15

‘Canal de vazamento’ na Lava Jato pode ter favorecido poderosos

Foto: VEJA.com/Folhapress
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O teor das conversas entre o senador Delcídio do Amaral (PT-MS), preso nesta quarta-feira pela Polícia Federal, e interlocutores do ex-diretor da área internacional da Petrobras Nestor Cerveró indica a existência de um ‘canal de vazamento’ na Operação Lava Jato. A avaliação é da Procuradoria-Geral da República. Esse canal tem ajudado pessoas poderosas a se manterem informadas e a manipular depoimentos, de acordo com a PGR.

A informação consta do pedido feito pela Procuradoria ao Supremo Tribunal Federal (STF) para realizar buscas nos endereços do senador, do banqueiro André Esteves, do chefe de gabinete de Delcídio, Diogo Ferreira, e do advogado do ex-diretor Nestor Cerveró, Edson Siqueira Ribeiro. Além de autorizar as buscas, o STF decretou a prisão dos quatro por tentarem atrapalhar as investigações do escândalo do petrolão.

A Procuradoria concluiu que Esteves e Delcídio do Amaral tiveram acesso à minuta da delação premiada do ex-diretor da área internacional da Petrobras Nestor Cerveró, assinada no dia 18 de novembro, que implicava ambos no esquema de corrupção da petroleira. “Esse fato torna provável, por sua vez, a existência de canal de vazamento mais amplo na Operação Lava Jato. Sempre houve a suspeita, com efeito, de que exista canal nesses moldes, haja vista a elevada quantidade de vazamentos na Operação Lava Jato, e de que ele sirva para manter pessoas poderosas informadas dos desdobramentos do complexo investigatório, permitindo-lhes tentar, em determinadas situações, exercer influência sobre a formação do conjunto probatório”, diz o documento. A constatação foi feita com base em uma reunião realizada entre o advogado de Ribeiro, o senador Delcídio do Amaral e o filho do ex-dirigente da Petrobras, Bernardo Cerveró, que gravou a conversa. Parte do diálogo entre os três foi transcrita no documento da PGR.

O tema do encontro é a delação premiada que estava sendo negociada por Cerveró com o Ministério Público Federal. No encontro, Delcídio relata que Esteves o procurou preocupado pela citação do seu banco, o BTG Pactual, na delação. “Ele [Esteves] disse: ‘não Delcídio, não tem problema nenhum, eu estou interessado, eu preciso resolver isso. O meu banco é enorme, se eu tiver problema com o meu banco eu tô fod…, (…). Eu quero ajudar, quero atender o advogado, quero atender a família, ajudo, sou companheiro'”, relata o senador ao advogado de Cerveró. Em seguida, o senador emenda: “Ele quer ajuda, quer apoio, ele dá apoio, mas ele chora as pitangas e vai criando, onde ele puder enganhar, ele enganha. Ele trouxe um paper, aquele paper”. O paper seria o rascunho da delação de Cerveró. Segundo os autos da PGR, Delcídio ofereceu uma mesada mínima de 50.000 reais à família do ex-diretor da estatal para que ele não levasse adiante a colaboração premiada. Esteves seria o encarregado desses pagamentos.

Em dado momento da conversa, o advgado garante a Delcídio que Cerveró não irá citá-lo em seus depoimentos. “Só para colocar. O que eu combinei com o Nestor que ele negaria tudo com relação a você e tudo com relação ao… [PT ou PP, a procuradoria não entendeu bem a palavra gravada no áudio]. (…) Não tendo delação, ficaria acertado isso. E se houvesse delação, ele também excluiria”, Delcídio, então, responde: “É isso”
“A interação entre ele e o senador Delcídio Amaral sinaliza, por sua vez, que o congressista também seja, quando menos, benefíciário do canal em questão”, conclui a procuradoria. Além disso, o órgão também afirma que Delcídio tomou conhecimento da delação premiada do lobista Fernando Soares, o Baiano. O lobista citou o líder do governo no Senado como beneficiário de uma propina de 1,5 milhão de dólares na negociação da refinaria de Pasadena, nos Estados Unidos.

Em seu depoimento, Bernardo Cerveró foi categórico em dizer que a delação do seu pai nunca deixou a carceragem da Polícia Federal em Curitiba, o que leva a crer que ela foi obtida por “meios criminosos”. Os mandados de busca foram expedidos justamente para tentar encontrar a “delação vazada” no endereço dos envolvidos. “No caso em apreço, é imperativo buscar e apreender, junto a André Esteves, Delcídio Amaral e Edson Ribeiro, as cópias físicas e virtuais do rascunho de anexo de colaboração premiada de Nestor Cerveró, porque sua obtenção só pode ter ocorrido por meios criminosos”, diz o texto. “André Esteves não deveria ter o documento; se o tivesse, não deveria ter espaço para discuti-lo com um congressista; se discutisse, o congressista não deveria permitir que o documento fosse usado para monitorar as decisões de réu preso na Operação Lava Jato quanto a colaboração premiada”, conclui a procuradoria.

Fonte: Veja.com

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