22/11/2015 13h26 - Atualizado em 22/11/2015 16h19

E se a selva sussurrasse?

“Quando a selva sussurra – Contos amazônicos”, antologia de histórias que reinventam o folclore brasileiro, é o projeto de estreia do selo Lendari.
Foto: Reprodução
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Assombrações da floresta, guardiões dos animais com poderes sinistros, serpentes maiores que bois e sereias cuja única excitação é afogar a homens incautos, tais criaturas são personagens frequentes no imaginário de cada brasileiro. Contudo, quando o homem refina sua ciência e é vencido por essa força faminta chamada progresso, muito do que seus ancestrais respeitavam e temiam acaba limitado aos cantos mais afastados de nossa memória.

Os deuses da floresta e dos rios fugiram das disputas do homem branco no Sul do país, abandonaram o Sudeste e o Centro-Oeste quando as árvores viraram carvão e o chão sangrou ouro, deixaram também as praias do Nordeste, pois lá eram queimados com maior força pela cruz que vinha nos navios da Europa madrasta. Foi no Norte do Brasil, terra que sempre resistiu a crescente fome da ambição humana, que encontraram abrigo, que semearam suas histórias e ensinaram a cada ancião os mistérios da terra e do ar, ensinaram a como sobreviver.

Sua herança ainda é lembrada nas terras abaixo do Amazonas, do Amapá e Tocantis, mas é Norte que a força de tais entidades é preservada, seja nos sussurros rápidos dos supersticiosos ou nas visagens que surgem à meia-noite, terror dos que moram às beiras do que sobrou da floresta. Lá, sua força ainda é sentida na correnteza do Rio Negro, na névoa fantasmagórica que cerca o Pico da Neblina, e até mesmo as gerações mais recentes sabem que há algo a ser evitado fora dos limites das cidades, onde o asfalto dá vez ao chão batido e a copa das árvores expulsa o sol.

Pensando nas histórias que mantêm esses deuses e monstros ainda fortes na tradição brasileira é que o selo editorial Lendari surgiu. Em um momento em que a leitura passa a ganhar destaque na rotina do brasileiro e a fantasia se tornou um de seus gêneros mais populares, o jornalista Mário Bentes viu a oportunidade de criar um selo que se dedicasse a trazer o folclore nacional, preservado com mais zelo nas planícies fluviais do Norte do país, para essa nova geração de leitores famintos.

E o que faria da iniciativa de Bentes tão relevante para a literatura brasileira?
“A importância se dá em justamente abrir mais espaço para o folclore amazônico no vasto mundo da literatura fantástica. A fantasia vem ganhando amplo destaque, ultimamente, em dezenas de lançamentos no mercado editorial, mas qual a inspiração da maioria dos livros do gênero? Lendas europeias, nórdicas, mitologias clássicas com variações poéticas de acordo com as preferências dos autores. Isso não é ruim, claro. Mas nosso folclore é tão rico, misterioso e empolgante quanto qualquer outro, mas muito subutilizado e pouco consumido aqui mesmo. Acredito que, com a antologia de contos baseados em lendas amazônicas, podemos retomar o interesse do público – sobretudo o mais jovem e maior leitor de literatura fantástica – pelas lendas originais da região e incentivar novas criações. Há uma fauna mágica gigantesca a ser desbravada por aqui”, afirma o criador do selo.

E para iniciar esse desbravamento, Bentes, que também é autor da obra A Terra por onde caminho (2013), selecionou catorze autores para que, juntos, produzissem a antologia “Quando a selva sussurra – Contos amazônicos”, uma obra que reúne por volta de 22 histórias originais livremente inspiradas em alguma passagem da mitologia nacional, reinventando elementos dos folclores indígena e afro-brasileiro e apresentando ao mundo sua própria versão dos mistérios da floresta. A produção da primeira tiragem do livro está sendo custeada por meio de Crowdfunding, uma campanha virtual de financiamento coletivo.

Além do próprio Bentes a antologia traz nomes como Ross Freitas e Rafael Rodrigues, ambos jovens autores manauaras com histórias publicadas em 2015 pela paulista Editora Empíreo, em um projeto que homenageava o célebre poeta Edgar Allan Poe. Rafael destaca a relevância desse tipo de campanha para a realização de projetos como o da Lendari: “Não só para tirar um projeto do papel, nem tornar um sonho possível, mas trata-se de uma perspectiva encontrada para viabilizar o ramo independente e de pequenas editoras. A flexibilidade desse tipo de capitalização de recurso, de forma coletiva, é uma resposta de autores independentes que, como eu, às vezes não têm a visibilidade das grandes editoras, e é também uma maneira de concorrer com títulos estrangeiros, para dar um respiro e ares de renovação à literatura. […] Acompanhando uns projetos de quadrinhos e agora um livro colaborativo na qual participo, é visível que uma boa dose de empreendedorismo e persistência é investida para o sucesso de um projeto”.

As ilustrações do livro, que acompanham o início de cada história, foram cuidadosamente elaboradas pela equipe de criação visual Animeniac Xmao, um grupo de artistas que recentemente tem se destacado bastante no circuito artístico manauara. Luiz Andrade, membro do Animeniac, assim como Rafael Rodrigues, falou um pouco sobre o como foi traduzir a força dos contos para as ilustrações: “O processo foi bem interessante para todos os envolvidos, pois apesar do traço das ilustrações ser do Rafael Rodrigues, todos ajudaram no layout e na construção dos desenhos, fazendo esboços e dando opiniões. Traduzir alguma coisa já pode implicar na modificação de sentido, com a ilustração não é diferente. E por isso houve uma preocupação muito grande em retratar o conceito da forma mais próxima possível, mas pesar disso houve bastante liberdade de criação e interpretação. Como o traço do Rafael foi escolhido por suas características únicas com técnicas em nanquim, não foi tão difícil dar uma interpretação bem diferente e ainda sim bem regional do clima fantástico que os contos propõem”.

Também aceitei colaborar com a iniciativa de Bentes para dar prosseguimento ao meu projeto literário iniciado com o livro “Relatos de um mundo sem luz” (2013), incluindo em sua antologia duas histórias de minha autoria, “Dízimo” e “O que o fogo nos deu”, ambas inspiradas por narrativas bíblicas e mitos de outras culturas, além da já citada influência indígena e afro-brasileira. Ambas foram escritas exclusivamente para concorrer à seleção feita pelo selo Lendari no início do ano, pois quando fiquei sabendo da convocação, acabei percebendo uma coisa importante: não há selos editoriais para literatura fantástica no Amazonas.

O que o Lendari ofereceu para autores como nós ao produzir o “Quando a selva sussurra” foi uma chance de sermos os primeiros a desbravar a fantasia no Amazonas, com trabalhos autorais que absorvem o melhor do folclore brasileiro e o reimaginam à imagem e semelhança de nossa visão contemporânea. O que torna sua proposta tão atraente é justamente essa liberdade criativa que nos foi permitida, mesmo que com um eixo temático orientando a produção.
Mais que a valorização do folclore nacional, “Quando a selva sussurra”, do selo Lendari, propôs também a valorização do autor amazonense, que, lidando com uma cultura que nunca privilegiou a leitura, lida com o desafio diário de dar vida à suas histórias, dar linhas à sua existência. Creio que falo também pelos outros autores Lendari quando digo que me enche de orgulho ver meu trabalho circulando nas mãos de leitores, que, como os autores, também são criaturas rebeldes a essa cultura que resiste à leitura.

“Quando a selva sussurra – Contos Amazônicos”, será lançado no dia 23 de dezembro na capital amazonense, e, a fim de dar suporte a produção e promoção do livro, a campanha de pré-venda feita por financiamento coletivo está disponível no link abaixo:

http://www.kickante.com.br/campanhas/pre-venda-quando-selva-sussurra-contos-amazonicos

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