28/11/2015 13h39 - Atualizado em 28/11/2015 13h39

Não há mais escritores no Amazonas

Foto: Eric Lima
Foto: Eric Lima

É fácil ter essa impressão se acompanharmos a literatura que é produzida em um dos maiores estados do Brasil. Nomes como Milton Hatoum, Thiago de Mello, Astrid Cabral e Tenório Telles são consagrados em nosso circuito literário, e é sempre um acontecimento a ser celebrado quando os vemos envolvidos em algum projeto novo, especialmente por nos sentirmos representados quando um artista amazonense tem seu trabalho reconhecido, sentimos orgulho de ter alguém a quem admirar e que tenha partilhado conosco um mesmo plano de fundo.

Contudo, desde que os mesmos exemplos citados acima se tornaram os carros-chefes do que é escrito no estado, o mercado editorial parece ter cessado de destacar novos nomes, novas perspectivas para o desenvolvimento da literatura no Amazonas. Sinto que o mesmo possa ser dito da literatura brasileira, tão rica e abrangente em possibilidades, mas que parece ter sido cristalizada há algumas décadas atrás, só que faria desse um texto demasiado grande que provavelmente eu não teria propriedade suficiente para lidar com, já que não visitei cada canto do país.

O que eu sei é que o amazonense precisa urgentemente contemplar sua própria história, perceber as nuances de sua própria cultura, e recorrer a tais autores é indispensável para que, por meio da literatura, possa compreender melhor sua própria realidade, aquela história de conhecer o passado para lidar com o presente e construir um futuro melhor. O que é uma proposta maravilhosa, mas e se já houver aqueles que tentam traduzir a realidade presente em literatura, tendo ainda que lidar com a sombra dos que vieram antes?

Em um contexto como o do Brasil, onde a leitura não é uma prática incentivada e nem vista como uma ferramenta de libertação, tornar-se escritor é uma tarefa penosa, e parabenizo aos imortais que conseguiram fazer isso em uma época em que a verdade e a poesia eram punidas com tiros, mas é curioso imaginar o quão mais difícil acaba se tornando quando não há nenhum tipo de ferramenta institucional (escolas, programas) que incentive essa formação e até mesmo profissionalizem a prática da escrita, que é sempre vista como o hobby de pessoas criativas e cheias de sentimento para compartilhar.

Já faz alguns anos desde que editais de incentivo a produção cultural no Amazonas realmente incentivaram a produção cultural, havendo hoje uma escassez sensível de tais iniciativas, e certamente é algo que desestimula qualquer escritor, mas convenhamos, qualquer um que escreva sabe que fazer o que fazemos é um ato de rebeldia, um grito contra o mundo, então é realmente interessante como somos atingidos tão seriamente pelos obstáculos que o poder público (um dos inimigos históricos da potência criativa, sempre bom lembrar) se apraz tanto em erguer.
Fomos apagados do mercado editorial, quase esquecidos depois de Telles, Cabral e Hatoum, privados de uma formação cultural por um sistema de ensino tão mal articulado quanto nosso circuito artístico, mas ainda temos nosso ofício, ainda temos nosso talento, ainda temos a rebeldia que vem de brinde. Nós escrevemos, e isso por si só já é transgressor, já que não vivemos num país que dá apoio a esse tipo de coisa.

“Mas você estuda Letras por que não conseguiu passar em Direito?”
“Você trabalha ou só escreve?”
“Além de escrever, você pretende fazer o quê da vida?”
“Cê sabe que não dá dinheiro neh?”

São alguns exemplos do que sou obrigado a ouvir quando perguntam sobre minha profissão. O que é curioso é que nada disso é dito com o intuito de ofender ou desmerecer, mas são algumas das pérolas com as quais o senso comum evangeliza o cidadão brasileiro. Se eu já for um autor famoso (o que aparentemente deve acontecer de forma mágica, segundo a crença comum), beleza, o que eu faço é relevante, é importante, é arte, mas se eu vendo o que eu produzo na esquina, em alguma feira de autores iniciantes, com textos impressos em A4 e monto um livreto disso, provavelmente sou um iludido que logo logo hei de ter que enfrentar a realidade e ver que meu trabalho não é trabalho.

Não, inspiração não é quando do nada desce uma luz do céu e de repente eu começo a falar em línguas, nem escrever é algo que eu faça desde que nasci. Escrever é um ofício que se desenvolve, é um investimento que custou muito dos meus serviços como professor em livros de mulheres e homens que conseguiram antes de mim, em viagens para que eu expandisse meus horizontes e aprendesse mais sobre outras culturas ou em alguns litros de café, para que eu sentisse aquele gosto que não pode faltar quando você se dedica a qualquer coisa (nada de instantâneo, sou do tipo que prefere o passado no coador).

Mas, a todos que escrevem ou que sonham em escrever, seja no Amazonas ou em lugares aonde esse texto possa ter chego, eu digo que a primeira pessoa que tem que acreditar que o que fazemos é algo sério somos nós mesmos.

Nós investimos em nossa própria formação, em nosso próprio processo criativo, incentivamos até mesmo nossa inspiração, seja metidos em livros ou no fundo de um copo vazio no bar da esquina. Todo autor, antes de trabalhar com alguma editora, sempre lutou de forma independente; escrever é uma profissão solitária, que cresce sozinha, se desenvolve sozinha, mas que não deve definhar sozinha. Costumo dizer que é um teste para quando conseguirmos ir um pouco mais longe.
Mas para ir mais longe, precisamos sair do lugar.

E daí que tenha que ser na esquina, oferecendo um fanzine de cada vez? Ou numa feira, quando você é um completo desconhecido e só tem seus amigos no Facebook para contar no dia do lançamento de um manuscrito produzido quase a mão?

Muitos autores, populares ou não, gostam de criticar as novas mídias, o impacto das redes sociais, gostam de enfatizar o quanto isso desestimula ainda mais sua produção, o quanto desmerece a leitura e cria vários zumbis do espaço virtual, e, talvez com uma frequência que não é saudável, proclama que é falta de cultura do povo o motivo de não ser apreciado. E eu digo que isso é besteira.

É mais uma oportunidade do que um empecilho, uma chance de exercitarmos uma coisa que todo, eu repito, TODO autor independente precisa ser: empreendedor. Nenhum de nós começa com um empresário, um editor, um capista e um ilustrador em nossa folha de pagamento, uma vez que não conseguimos sustentar nem a nós mesmos com nosso trabalho, o que nos leva a ter que desenvolver outras habilidades, outros talentos para que vejamos nossos projetos crescer.

E, caso você escreva, é importante entender também que seu trabalho não é o novo tratado angelical e nem você um presente para a humanidade: se quiser que as pessoas respeitem e conheçam o que você faz, você tem sim que sair de casa e se fazer ouvir, se fazer ver, da mesma forma que um músico amador ou um pintor iniciante. Ninguém sabe o seu nome, e não espere que saibam depois que ele estiver na capa de um livro, que, a propósito, não vão saber o nome também.

Não há editoras, não há permissão das livrarias, não há apoio do governo. Mas há nós, há nossa paixão, há ferramentas que podemos utilizar para nos fazer existir, nos fazer trabalhar, nem que seja nos fazendo conhecer a uma pessoa por vez. E há também outros artistas, outras pessoas que podem aceitar dividir essa batalha, que ajudem a desenvolver os outros talentos que você precisa para lidar com um mundo que não tem obrigação nenhuma de respeitar o que você faz só porque foi você quem fez.

E Manaus não carece de atores, músicos, cineastas e pintores iniciantes, com ideias novas e que fogem ao senso comum, pessoas que realmente estão dispostas a sangrar por seu trabalho. E que podem nos ensinar muito sobre a versatilidade da arte, podem agregar muito a nossa escrita. Também não carece de uma efervescência de usuários de redes sociais, que tanto pode criar uma rede de público local quanto nacional, e, por que não dizer, internacional?

É justamente esse apagamento, essa desarticulação que a produção literária no Amazonas vem sofrendo que pode deixar tudo mais interessante para o autor contemporâneo. É esse o momento para o escritor sair de casa, fazer contatos, falar em público sobre como é ser tímido, conversar com artistas de várias outras vertentes para entender melhor nossa própria arte, como refiná-la e fazê-la conversar com as demais. É o momento que, daqui a algumas décadas, podemos dizer que vivemos e vencemos, de prepararmos o terreno para a próxima geração de escritores que nos sucederá, para que não passem pela mesma Idade das Trevas que enfrentamos agora.

Precisamos sair de casa, fazer nosso espaço. Afinal, até Lady Gaga já pedalou através de Nova York com um teclado nas costas aproveitando as chances que conseguia para se apresentar.

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