07/11/2015 14h48 - Atualizado em 8/11/2015 09h51

Os Gêneros de Gelo e Fogo: a influência desses elementos no rumo da Guerra dos Tronos

Ilustração: Eric Lima
Ilustração: Eric Lima

Fogo e gelo
“Alguns dizem que o mundo acabará em fogo,
Outros dizem em gelo.
Fico com quem prefere o fogo.
Mas, se tivesse de perecer duas vezes,
Acho que conheço o bastante do ódio
Para saber que a ruína pelo gelo
Também seria ótima
E bastaria”
Poema de Robert Frost que inspirou a criação d’As Crônicas de Gelo e Fogo

Desde que foi adaptada para a TV pela HBO, As Crônicas de Gelo e Fogo, série de livros ainda em produção pelo norte-americano George R.R. Martin, se tornou a saga de fantasia mais popular da História (até o momento, pelo menos). Nunca tantas teorias e suposições foram levantadas acerca de uma obra do gênero, nem teve impacto tão repentino na cultura pop ou conseguiu manter tantas pessoas interessadas por (pasmem) quase 19 anos após o lançamento do primeiro livro da série, e contando. Polêmica por definição, afinal, é alto o índice de personagens que sofrem mortes hediondas e traumas piores ainda, foi responsável por levantar nos últimos anos intensos debates sobre ser conivente ou não acerca das questões sociais pelo qual é tão lembrada.

Pessoalmente, a obra de Martin já é digna de atenção apenas por fomentar tais discussões, bem como por desenvolver uma história cuidadosamente intrincada sobre guerras civis, fantasia medieval e intrigas políticas, mas, para além das questões sociais, há uma carga simbólica muito intensa no enredo d’As Crônicas. Outra característica bem proeminente é quão bem as personagens do país fictício de Westeros são trabalhadas dentro da trama, tornando-se facilmente seu ponto mais forte. A coluna dessa semana procura alinhar um pouco dessas duas características.

Muito se especula pela presença de Gelo e Fogo no título principal da série, deixando qualquer leitor ou telespectador a montar peças de um quebra-cabeça quase infinito sobre como a trama vai ser encerrada. O que eu quero focar aqui não é o final, mas o processo, o decorrer da história, observando essa dualidade tão poderosa no título através da parte mais importante da trama: as personagens. Muitas delas, pessoas importantes na política de Westeros e diretamente ligadas às decisões militares que levaram o mundo das Crônicas ao caos da guerra civil, independente da posição de poder, são confrontadas diretamente por um rival ou aliado duvidoso de igual relevância, tão opostos que, além de serem frequentemente de gêneros diferentes, levam muitas vezes o autor a relacioná-los ao conflito expresso no título.

O primeiro livro da série, A Guerra dos Tronos (1996), nos apresenta ao líder da família Stark, Eddard, aquele senhor honesto que todos achávamos que ia se safar de ser decapitado por ser o mocinho. A nobreza do Protetor do Norte é a virtude mais lembrada ao longo da série, com várias outas personagens lamentando ou celebrando sua morte, e curiosamente, aprendemos mais sobre Eddard através do que as pessoas se recordam dele do que quando o mesmo estava vivo e contando a própria história: Stark é lembrado como a personificação do frio do Norte, um homem com água gelada nas veias que jamais agiria contra seu código de lealdade e honra. Para uma integridade sólida, Eddard assumiu uma postura fria, inflexível, que não hesitaria em matar se essa fosse a ordem de seus superiores.

No mesmo livro começamos a acompanhar também Caitlyn Tully-Stark, mulher de Eddard e o ying de seu yang. Lady Stark é a contrapartida de seu marido, inclusive nos atributos físicos: enquanto Eddard tem os traços escuros e duros, Caitlyn é o que chamam na série de “beijada pelo fogo”, intensamente ruiva e de uma leveza maternal e acolhedora, são esses mesmos instintos que a levam a fúria, ao ímpeto assassino que se apossa dela ao ter que defender sua família. Capaz de alinhar paixão a estratégia militar (nem sempre com sucesso), nem mesmo as chamas do espírito de Lady Stark puderam vencer o conflito com a geada que Eddard costumava trazer nos olhos: “Imaginara-o como uma versão mais nova do irmão Brandon, mas tinha se enganado, Eddard era mais baixo e tinha um rosto mais simples, e era muito melancólico. Falava de forma bastante cortês, mas, por baixo das palavras Catelyn sentia uma frieza oposta ao que era Brandon, cujas alegrias tinham sido tão violentas quanto as iras. Mesmo quando tomou sua virgindade, o amor deles teve mais do dever do que paixão”.

Outro casal que segue uma via mais distorcida desse perfil é Stannis Baratheon, um dos muitos pretendentes ao trono de Westeros, e sua sacerdotisa, a bruxa Melisandre. Dono de um implacável e muitas vezes inconsequente senso de justiça, Stannis precisa empunhar um coração ainda mais gelado do que de Eddard para derrotar seus inimigos, disposto a queimar o sobrinho para obter bênçãos divinas para sua empreitada militar. Até a pele do homem é descrita como dura ao mover-se com a mandíbula, e nunca seu olhar carrega algo além de julgamento: “Não há na terra criatura que seja, nem de longe, tão aterradora como um homem verdadeiramente justo”. Quanto a Melisandre, a Feiticeira Vermelha, chamada assim pelas vestes e pelo cabelo ruivo, já bem avessa a moralidade de Caitlyn: devota de R’hllor, o cruel deus do fogo que lhe concede o dom de ver o futuro nas chamas e utilizá-las para dominar sombras, utiliza a fé do aspirante a rei para instigar nele uma frieza quase desumana, e por isso dizia-se que “muitos a chamavam de bela. Ela não era bela. Ela era vermelha, e terrível, e vermelha”.

Em uma dinâmica bem diferente, vemos esse conflito de elementos na relação da rainha Cersei, que manteve o trono de Westeros até o fim do quinto livro, A Dança dos Dragões (2011), com seu pai e conselheiro, Tywin Lannister. Cersei, uma das personagens mais odiadas n’As Crônicas, é fogo puro: desprovida de qualquer senso de alteridade ou prudência, não hesita em provocar uma guerra por pura paixão, seja contra seus inimigos ou mesmo contra seus aliados, pois “nunca esquece uma afronta, real ou imaginária. Confunde cautela com cobardia e divergência com desafio. E é gananciosa. Tem ânsia de poder, de honra, de amor. O reinado está sustentado por todas as alianças que o senhor meu pai construiu tão cuidadosamente, mas ela irá destruí-las a todas, bem depressa.”. Cersei traz nos cabelos loiros a personificação das chamas do orgulho, sempre adornada em um vermelho suntuoso, cores da família Lannister. Para refreá-la em sua sede insaciável por qualquer coisa, temos o cruel Tywin Lannister, um comandante inescrupuloso que não se limita a tradições ou honra para afirmar-se como a força mais terrível de Westeros, sendo responsável pelo maior massacre da saga, o Casamento Vermelho. Contudo, ao contrário da filha, o faz com uma minúcia estratégica singular, o que o leva tanto a perdoar os inimigos em benefício do reino quanto a ordenar atos de infanticídio, estupro, traição ou todos os anteriores.

Finalmente, temos um par que, apesar de nunca ter sequer um ter ouvido falar do outro, são a principal suspeita das teorias para que o título da série tenha um peso concreto sobre seu desfecho: Jon Snow e Daenerys Targaryen. O primeiro, filho bastardo de Eddard Stark e comandante ainda inexperiente de uma tropa de homens que jurou lutar no extremo Norte de Westeros contra os males sobrenaturais que vivem em eterno frio, é fortemente suspeito de ser o escolhido de uma profecia messiânica, a mesma professada por Melisandre: por ter o frio como lar e mal ter desfrutado do calor de uma família, Snow incorpora o melhor de Eddard, por mais que lute para livrar-se da parte inflexível. Mas, para muitos fãs que acompanham a narrativa avidamente, seu dever em proteger Westeros jamais será completo sem a assistência de Daenerys, última de sua família que, sozinha, conseguiu dar vida a três dragões reais, que parecem ser o único recurso que ajudaria o suposto salvador d’As Crônicas a derrotar os misteriosos demônios de gelo que habitam o Norte. Seria, portanto, através de ambos que Fogo e Gelo se debateriam, decidiriam o futuro de um povo que já está a caminho da ruína por conta própria.

E o que mais empolga na escrita de Martin é justamente isso: ela já se provou imprevisível. Por mais que tentemos realizar leituras como a expressão do Fogo e do Gelo nas personagens, em como isso se reflete em uma interação sempre conflituosa entre esses elementos nos perfis de gênero desse universo (mulheres frequentemente associadas a impetuosidade do fogo, homens, a dureza insensível do gelo), é inevitável chegar ao ponto em que a única leitura a ser feita é a da especulação, pois como foi citado no início do texto, estamos ainda a dois livros do término da saga, e ainda observando esses dois elementos espalhando pistas sobre como uma história que vem desafiando as expectativas de leitores por quase duas décadas há de ser encerrada. Talvez Martin tenha usado os versos de Robert Frost não apenas como uma inspiração para criar sua odisseia medieval, mas como uma previsão sobre o que podemos esperar do grande final:

Não um ou outro, que As Crônicas sejam destruídas por Gelo e Fogo.

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