21/03/2016 10h09 - Atualizado em 21/03/2016 10h09

Aumento da incerteza política põe freio no crédito

A crise eleva os calotes e faz os bancos serem ainda mais conservadores para emprestar.
Foto: Beatriz Albuquerque/VEJA
Foto: Beatriz Albuquerque/VEJA

O aprofundamento da crise política no Brasil deve pesar na demanda por crédito, já bastante deprimida, contribuindo para a paralisação da economia em um momento em que se discutem medidas para a retomada do crescimento. Associado ao impacto da deterioração do desemprego, que eleva os calotes e faz os bancos serem ainda mais conservadores para emprestar, a instabilidade política traz um fator negativo adicional para o desempenho das carteiras no primeiro trimestre, tradicionalmente mais fraco.

Em alguns bancos, o clima político mais intenso e as manifestações já começam a impactar a demanda por crédito, conforme relatam executivos dessas instituições. À reportagem do Estado de S. Paulo, um deles pondera que o patamar dos meses anteriores já estava baixo e que, portanto, o reflexo até o momento ainda não é tão grande. No entanto, lembra que a volatilidade atual, que tem pressionado o dólar em relação ao real, pode afetar o crescimento das carteiras caso, no fechamento do primeiro trimestre, a moeda fique muito abaixo da cotação de dezembro, de 3,90 reais.

Sob o ponto de vista de crédito, um executivo de um grande banco de varejo destaca que o reflexo do cenário atual se estende para todos, desde o aposentado que vai tomar um consignado até o empresário que decide se amplia seu negócio ou não. “A falta de confiança é negativa. Além de tudo, cria mais incerteza ainda. Todo esse processo (político) gera mais volatilidade, o que é muito ruim para a economia. Já estamos em um nível inédito. A última vez que tivemos um processo parecido foi em meio ao bloqueio de recursos, no governo Collor”, compara ele.

Os investimentos, já escassos, não devem ocorrer no contexto atual, com o crédito sendo puxado, principalmente, pelo capital de giro, necessário para o dia a dia corporativo. Embora já restrita, a demanda por parte de indivíduos, que postergaram decisões de compra, e das empresas, que a cada dia engordam a lista de pedidos de recuperação judicial, com muitas fechando as portas, segue ainda mais tímida. Na dúvida, as decisões estão sendo adiadas por tempo indeterminado, de acordo com especialistas.

“O cenário de expansão ou contração de crédito se agravará. Os resultados dos grandes bancos ainda podem segurar uns dois ou três trimestres, mas mostrarão sinais de deterioração”, avalia o executivo do alto escalão de uma instituição.

Retomada
Impactada pela falta de confiança, que nas últimas semanas piorou diante de desdobramentos da Lava Jato e da nomeação do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva a ministro chefe da Casa Civil, a demanda das empresas por crédito encolheu 11,7% no acumulado do primeiro bimestre ante mesmo período de 2015, de acordo com dados divulgados nesta semana pelo Serasa Experian. Com a menor disposição de famílias e empresas em tomar novos empréstimos, o crédito inverteu o sinal de alta visto em dezembro. Segundo os dados mais recentes do Banco Central, o saldo total recuou 0,6% em janeiro, para 3,199 bilhões reais.

Na melhor das hipóteses, o crédito crescerá apenas um dígito em 2016, embora os menos otimistas trabalhem com cenário de retração das carteiras. No ano passado, o desempenho já ficou abaixo do previsto. Para 2016, as projeções mais otimistas vêm dos bancos públicos, que no passado foram ponte para o governo estimular o crédito e, consequentemente, a economia. Enquanto o Banco do Brasil espera alta de 3% a 6%, a Caixa Econômica Federal trabalha com intervalo de 7% a 11%. Já o Itaú Unibanco, o mais pessimista, admite retração de 0,5% em seus empréstimos e, no máximo, alta de 4,5%. O Bradesco espera avanço de 1% e 5%.

Fonte: Veja.com

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