29/03/2016 14h40 - Atualizado em 30/03/2016 11h10

PMDB rompe aliança com PT e proíbe cargos no governo

Atualmente, cerca de 600 cargos da máquina pública federal são ocupados por peemedebistas.
Foto: Divulgação
Foto: Divulgação

O PMDB confirmou na tarde desta terça-feira (29) a ruptura com o governo de Dilma Rousseff.

Os seis ministros do partido, assim como membros da sigla que trabalharam para o governo, devem deixar o cargo até o próximo dia 12 de abril. Atualmente, cerca de 600 cargos da máquina pública federal são ocupados por peemedebistas.

Na noite de ontem, o então ministro do Turismo Henrique Alves se antecipou ao posicionamento oficial da sigla e pediu demissão.

A decisão de hoje foi feita por aclamação. O vice-presidente Michel Temer (presidente do PMDB) e os ministros não participaram da reunião de hoje, comandada pelo senador Romero Jucá (RR).

“A partir de hoje, dessa reunião histórica, o PMDB se retira da base do governo Dilma Rousseff. Ninguém está autorizado a exercer qualquer cargo federal em nome do PMDB”, disse Jucá.

Além da vice-presidência do Executivo e do comando da Câmara e do Senado, o PMDB também controla a maior bancada do Congresso. Sem o apoio do partido, o risco do fim de mandato de Dilma aumenta.

Debandada

O temor atual do Executivo é que a saída do PMDB possa, a partir de agora, provocar a saída de outras legendas da base aliada, como o PRB e o PP.

Em entrevista a veículos de imprensa estrangeiros, o ex-presidente Lula disse que a estratégia do PT daqui para frente será o de atrair setores do PMDB que ainda são simpáticos à presidente Dilma.

Em 2003, quando Lula foi eleito, integrantes do PMDB ocuparam postos do governo, mesmo sem a sigla ter aderido formalmente .

As fases do casamento

Começo de namoro

Em 2002, enquanto o ex-metalúrgico Luiz Inácio Lula da Silva sonhava com o mais alto cargo político, a maior parte do PMDB apoiava a campanha do tucano José Serra à presidência.

Depois dos resultados das eleições – Lula eleito presidente com 53 milhões de votos e o PMDB com cinco governadores, 74 deputados e 19 senadores –, as duas siglas começaram a esboçar uma aliança que foi se fortalecendo ao longo dos dois primeiros mandatos do PT.

“O Lula começou o governo com pouco PMDB e foi aumentando a participação do partido gradativamente. No final, quase todos apoiavam o ex-presidente. Durante o mensalão, ele praticamente dividiu o governo no meio com os peemedebistas”, diz Ricardo Sennes, da consultoria política Prospectiva.

O bom relacionamento culminou na escolha de Michel Temer como vice-presidente de Dilma Rousseff nas eleições de 2010.

A primeira crise do casamento

Se na era Lula a articulação com o PMDB foi se desenvolvendo ao longo dos anos, com Dilma o processo foi inverso.

“Enquanto Lula abraçava todo mundo, Dilma foi centralizando sua gestão em um gabinete que só pertencia a ela. Não era nem do PT, nem do PMDB. Em 2012, em meio a muitas demissões, a presidente tirou do governo muitos peemedebistas, o que acabou desgastando a relação com Temer e outras lideranças”, diz Sennes.

Em janeiro de 2014, o PMDB chegou a cogitar uma saída drástica da base aliada depois que a presidente resistiu em dar mais um ministério à sigla, que, na época, comandava cinco pastas (Minas e Energia, Previdência, Turismo, Agricultura e Secretaria de Aviação Civil). Depois que a presidente cedeu, o partido decidiu continuar no governo.

Discussão de relacionamento

No segundo mandato de Dilma, os conflitos entre PT e PMDB ficaram ainda mais públicos.

Em março de 2015, o então ministro da Educação Cid Gomes (ex-PROS) foi convocado pela Câmara para dar explicações sobre uma declaração dada durante uma reunião em uma universidade. Na ocasião, Gomes afirmou que a Casa tinha de 300 a 400 parlamentares que “achacam”.

No plenário, Gomes subiu o tom e fez um apelo aos deputados “oportunistas” – que detêm cargos na administração federal, mas não dão apoio ao governo no Congresso – para que “larguem o osso”.

Depois do depoimento, o presidente da Câmara, Eduardo Cunha, e o PMDB ameaçaram deixar o governo caso Gomes não fosse demitido. A demissão – que partiu de Cid Gomes – foi anunciada por Cunha antes mesmo de ter sido oficializada.

O filho rebelde

Em julho do ano passado, Eduardo Cunha anunciou que, sozinho, faria parte da oposição de Dilma Rousseff. A decisão foi tomada logo após o peemedebista ser acusado pelo lobista Julio Camargo de receber 5 milhões de dólares em um esquema de corrupção na Petrobras.

Depois da ruptura, o presidente da Câmara assumiu uma nova posição no jogo político, se tornando uma peça chave no processo de impeachment de Dilma – e influenciando também no aumento dos conflitos entre petistas e peemedebistas.

A carta de desabafo

Em dezembro, o desgaste entre PT e PMDB foi, mais uma vez, levado à público com o vazamento de uma carta desabafo escrita por Temer e enderçada à Dilma.

Em 17 parágrafos, o vice-presidente expõe suas mágoas, diz que Dilma não confia em sua figura e que ele passou os quatro primeiros anos de governo sendo um “vice decorativo”.

“Perdi todo protagonismo político que tivera no passado e que poderia ter sido usado pelo governo. Só era chamado para resolver as votações do PMDB e as crises políticas”, escreveu Temer.

No final da carta, uma frase dá o tom do que viria daí para a frente. “Sei que a senhora não tem confiança em mim e no PMDB, hoje, e não terá amanhã. Lamento, mas esta é a minha convicção”.

O fim da relação?

Nesta terça-feira, o PMDB deve decidir em qual posição irá atuar daqui para a frente. Na lista de opções há desde o rompimento total da aliança e a entrega dos sete ministérios comandados pela sigla até um “abandono parcial”.

Na manhã de ontem, Dilma se reuniu com ministros peemedebistas. A atitude foi interpretada como uma das últimas tentativas do Planalto para salvar a relação entre os dois partidos. A reação dos ministros, no entanto, não foi das mais agradáveis, com alguns deles sinalizando um possível abandono do cargo.

Além da perda de votos no processo do impeachment, o temor atual do Planalto é que a saída do PMDB possa, entre outros efeitos, provocar a saída de outras legendas da base aliada, como o PRB e o PP.

A divisão do (maior) bem

Caso Dilma Rousseff saia da presidência, o PMDB herda o cargo de Presidente da República e se torna ainda mais poderoso, concentrando o comando do Executivo, da Câmara e do Senado. Apesar disso, garantem especialistas, o governo de Temer não será dos mais fáceis.

“O PMDB é um partido conhecido por sustentar a governabilidade. Toda a máquina do PMDB está ajeitada para eleger o máximo de deputados possíveis para, com isso, ter poder de barganha. Ele nunca mirou o Executivo então será difícil ocupar essa posição”, diz Rafael Araújo, cientista político da PUC-SP.

Um dos maiores desafios a serem enfrentados, segundo Araújo, é lidar com próprio PT, só que dessa vez como oposição. “É possível que haja uma união entre partidos menores e de esquerda e a calma do PMDB não duraria mais que dois meses. Movimentos sociais devem ocupar os espaços e o desenrolar da Operação Lava Jato pode complicar a vida de figuras do partido”, diz ele.

É quase impossível prever qual será o futuro do PMDB sem o PT e do PT sem o PMDB. As duas siglas, no entanto, dificilmente voltarão para a lua-de-mel.

Fonte: Exame.com

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