26/03/2016 16h22 - Atualizado em 26/03/2016 16h25

Profissionais do cinema lançam manifesto contra o impeachment

O manifesto na internet é encabeçado por Dandara Ferreira e Luiz Carlos Barreto.
Foto: www.circolare.com.br
Foto: www.circolare.com.br

Uma comissão de cineastas, atores, roteiristas e demais profissionais do audiovisual, encabeçada por Dandara Ferreira, filha do ministro da Cultura, Juca Ferreira, e pelo produtor Luiz Carlos Barreto, assinou um manifesto na internet contra o impeachment da presidente Dilma Rousseff, difundido nas redes sociais desde quarta-feira (23).

Até a publicação deste texto, os signatários do documento já excediam a casa dos 2.000. Segundo Dandara, entre os mais célebres estão os cineastas Kleber Mendonça Filho, Karim Aïnouz e Jorge Furtado, os atores Wagner Moura, Paulo Betti e Jesuíta Barbosa, além do ator e roteirista Gregório Duvivier, que também é colunista da Folha de S.Paulo. A diretora Anna Muylaert, que na quarta-feira (23) dedicou o prêmio recebido do jornal “O Globo” pelo filme “Que Horas Ela Volta?” a Lula e Dilma, também assina o manifesto.

“Denunciamos aqui o risco iminente da interrupção da ordem democrática pela imposição de um impeachment sem base jurídica e provas concretas, levado a cabo por um Congresso contaminado por políticos comprovadamente corruptos ou sob forte suspeição, a começar pelo presidente da Casa, o deputado federal Eduardo Cunha.”, diz o texto.

Os signatários expressaram indignação diante das “arbitrariedades promovidas por setores da Justiça, dos quais espera-se equilíbrio e apartidarismo”. Tais atitudes colocariam em xeque “a convivência, o respeito à diferença e a paz social”. O manifesto tem o intuito de “denunciar essa enganosa narrativa” e alertar a comunidade internacional do audiovisual sobre o momento político no país. Os profissionais demonstraram a intenção de lançar mão de instrumentos legais para “impedir um retrocesso em nossa frágil democracia”. O texto ainda evita adotar mensagem partidária, uma vez que os signatários expressam preferências políticas díspares. Leia o manifesto:

“Nós, cineastas, roteiristas, atores, produtores, distribuidores e técnicos do audiovisual brasileiro, nos manifestamos para defender a democracia ameaçada pela tentativa de impeachment da Presidenta Dilma Rousseff.

Entendemos que nossa jovem democracia, duramente reconquistada após a ditadura militar, é o maior patrimônio de nossa sociedade. Sem ela, não teríamos obtido os avanços sociais, econômicos e culturais das últimas décadas. Sem ela, não haveria liberdade para expressarmos nossas distintas convicções,- pensamentos e ideologias. Sem ela, não poderíamos denunciar o muito que falta para o país ser uma nação socialmente mais justa. Por isso, nos colocamos em alerta diante do grave momento que ora atravessamos, pois só a democracia plena garante a liberdade sem a qual nenhum povo pode se desenvolver e construir um mundo melhor. Como nutrimos diferentes preferências políticas ou partidárias, o que nos une aqui é a defesa da democracia e da legalidade, que deve ser igual para todos.

Somos frontalmente contra qualquer forma de corrupção e aplaudimos o esforço para eliminar práticas corruptas em todos os níveis das relações profissionais, empresariais e pessoais. Nesse sentido, denunciamos aqui o risco iminente da interrupção da ordem democrática pela imposição de um impeachment sem base jurídica e provas concretas, levado a cabo por um Congresso contaminado por políticos comprovadamente corruptos ou sob forte suspeição, a começar pelo presidente da casa, o deputado federal Eduardo Cunha. Manifestamos a nossa indignação diante das arbitrariedades promovidas por setores da Justiça, dos quais espera-se equilíbrio e apartidarismo.

Da mesma forma, expressamos indignação diante de meios de comunicação que fomentam o açodamento ideológico e criminalizam a política. Estas atitudes colocam em xeque a convivência, o respeito à diferença e a paz social. Repudiamos a deturpação das funções do Ministério Público, com a violação sistemática de garantias individuais, prisões preventivas, conduções coercitivas, delações premiadas forçadas, grampos e vazamentos de conversas íntimas, reconhecidas como ilegais por membros do próprio STF. Repudiamos a contaminação da justiça pela política, quando esta desequilibra sua balança a favor de partidos ou interesses de classes ou grupos sociais.

Nos posicionamos firmemente a favor do estado de direito e do respeito à Constituição Brasileira de 1988. Somos contrários à irracionalidade, ao ódio de classe e à intolerância. Como construtores de narrativas, estamos atentos à manipulação de notícias e irresponsável divulgação de escutas ilegais pelos concessionários das redes de comunicação.

Televisões, revistas e jornais, formadores de opinião, criaram uma obra distorcida, colaborando para aumentar a crise que o país atravessa, insuflando a sociedade e alimentando a ideia do impeachment com o objetivo de devolver o poder a seus aliados. Tal agenda envolve desqualificar as empresas nacionais estratégicas, entre as quais se insere a emergente indústria do audiovisual. Por todos esses motivos, nos sentimos no dever de denunciar essa enganosa narrativa e de alertar nossos pares do audiovisual em outros países sobre este assombroso momento que vivemos. Usaremos todos os instrumentos legais à nossa disposição para impedir um retrocesso em nossa frágil democracia.”

Fonte: Folha Uol

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