05/04/2016 23h24 - Atualizado em 5/04/2016 23h25

Zona Franca é uma “benesse” e governador não é Deus, diz Amazonino

Discurso de Amazonino foi quase uma aula sobre erros políticos.
Charge: Gusmão Silva
Charge: Gusmão Silva

O discurso do ex-prefeito Amazonino Mendes (PDT), na manhã desta terça-feira (5), na Assembleia Legislativa do Amazonas (ALE-AM) deixou alguns políticos, autoridades, e outros presentes, confusos quanto ao seu posicionamento político. Nas entrelinhas, o ex-prefeito criticou Eduardo Braga, disse que o projeto do monotrilho foi “um sonho idiota”, o gasoduto “um erro”, e a Zona Franca uma “benesse”. O discurso foi quase uma aula sobre erros políticos em que o próprio Amazonino se inseriu.

O discurso seria um mero falatório oposicionista se não fosse o fato de Amazonino ter sido aliado de Eduardo Braga nas eleições de 2012, declarando apoio a senadora Vanessa Grazziotin (PCdoB), candidata do grupo na época e ainda, no mesmo discurso, ter defendido o atual governador José Melo (PROS) da tribuna do parlamento.

Amazonino subiu na tribuna depois de receber uma série de elogios dos deputados Alessandra Campelo (PMDB), Wanderley Dallas (PMDB), Vicente Lopes (PMDB), Orlando Cidade (PTN) e até o Doutor Gomes (PSD) que andava sumido do plenário depois de ter sido denunciado por trocar voto por consultas médicas no gabinete da ALE-AM.

Gomes, que é pastor de uma igreja na zona leste, chegou a comparar Amazonino ao personagem da bíblia chamado Jacó, que cavou um poço no meio do deserto que existe até hoje, conhecido como Poço de Jacó. Ao falar da UEA, Gomes disse que Amazonino cavou o “poço do conhecimento”, ao criar a instituição “para matar a sede dos estudantes sedentos do interior do Estado”.

Assim que pegou o microfone, Amazonino foi logo agradecendo aos deputados que segundo ele, “foram extremamente gentis não importando o caminho político que cada um trilhou ao longo das jornadas eleitorais”. Minutos depois jogou um banho de água fria na maioria.

Isso eu já vivi

Amazonino disse que não poderia deixar passar a oportunidade de falar do atual cenário político e econômico do Estado. “Estamos vivendo um momento que na minha avaliação é um excelente professor. Ao longo dos meus três governos, tivemos que enfrentar cinco crises internacionais, México, Russia, Coreia, e outros dois. Houve momentos que o nosso Distrito Industrial estava reduzido a um terço. Abri mão de receitas para fazer com que as empresas não demitissem. Não tínhamos saída, era angustiante, era terrível, mas superamos. Eu tive cinco, e agora tem uma nova crise, isso significa que teremos sempre crises. Em um país que não está formado, um país complicado, que se revela em um consenso internacional com uma certa dose de irresponsabilidade, nos dói”, afirmou.

Troca-troca 

O ex-prefeito, que também foi governador do Amazonas por três vezes, prosseguiu dizendo que o processo político brasileiro é falho, errado, equivocado, e que descobriu quando foi eleito senador que no Brasil nem o processo político e nem os partidos são respeitados, e lançou criticas ao PMDB. “Já naquela época percebia-se com clareza a ausência total do respeito aos ideais dos partidários. Qualquer um trocava de partido como um jogador de futebol. Veja o que ocorre agora. O PMDB desembarca e não desembarca do governo, uma vergonha nacional. Nós não temos respeito pela coisa pública. Estamos despreparados”, disse ele, o que alguns entenderam ser um recado para Hissa Abrahão que recentemente se filiou ao PDT.

Ao falar da crise econômica do Estado, Amazonino questionou os presentes: “Qual é o tamanho da nossa culta? Estamos há 50 anos vivendo as custas de um decreto. O que foi que nós fizemos?”, disse ele se referindo a Zona Franca de Manaus. “Temos um Distrito Industrial que nos sustenta. Mas é uma caneta que nos sustenta. Quase 50 anos e o que foi que nós fizemos? Simplesmente em berço esplendido, auferindo essa benesse e mais nada”, afirmou.

Governador não é Deus

Amazonino também defendeu o governador José Melo (PROS) ao dizer que não dá para cobrar soluções de gestores em momentos de crise. “Não podemos cobrar de governador nenhum soluções no momento da crise porque ele não é Deus. A crise não é criada, ela vem, e explode. Seja A, B, C, D, E ou F. Não se pode cobrar também que ele faça mágica, porque ele não vai fazer jamais”, afirmou.

Mea Culpa

O ex-prefeito fez um convite aos políticos presentes a justificar seus mandatos. Disse que “um mandato não é um presente,  é uma tarefa”, e disse que como político poderia ter feito muito mais. “Eu falo, fazendo também minha penitência, minha mea culpa, de tantas e quantas coisas que eu poderia ter feito e não fiz, mas em meio perante a história a bondade de Deus me permite chegar hoje, encará-los e dizer a balança foi mais positiva do que negativa” disse.

Amazonino disse ainda que a economia de um Estado só sobrevive com recursos públicos e investimento privado dos empresários, mas que no caso do Amazonas, os empresários e investidores estão em outros Estados. Disse ainda que “nenhuma sociedade se organiza e se constitui, sem uma imprensa boa, sábia, e livre” mas que “aqui não podemos ter essa imprensa, nem que a imprensa queira” porque não tem investimentos e não consegue se alimentar do setor privado e sobrevive de recursos públicos.

Um erro, um sonho idiota

Amazonino ainda criticou a construção do gasoduto Coari Manaus, o que para ele foi um “erro absurdo” porque custou R$ 2,5 bilhões e hoje não tem uso. Amazonino ainda afirmou que o projeto do monotrilho foi um “sonho idiota”.

“Fizemos um gasoduto que custou R$ 2,5 bilhões para não ter gás. Esses equívocos, esses erros, e ainda se ufanavam disso em outdoors, esses absurdos. Poderíamos ter um sistema de transporte coletivo moderno, mas certos setores meteram na cabeça que a gente tinha que ter aqui um monotrilho, sonhos tolos, idiotas que jamais poderiam correr, debalde a gente ficou rouco discutindo os problemas e a sociedade não tomou conhecimento nem nada. Ficou nessa linha até que não sobrou nada”, disse Amazonino.

O monotrilho foi proposto na gestão do ex-governador Eduardo Braga(PMDB) em 2009 como um dos projetos fundamentais na luta para que Manaus figurasse como subsede da Copa de 2014. Deveria entrar em operação em dezembro de 2013, mas nunca saiu do papel.

Redação AM POST

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