05/07/2016 10h27 - Atualizado em 5/07/2016 10h27

Ossadas humanas estão abandonadas em galpão sujo do IML de Maceió (AL)

O material está jogado no galpão, localizado num terreno baldio habitado por um bando de gatos, desde ao menos 2013.
Foto: Reprodução
Foto: Reprodução

Maceió (AL) – No chão sujo de um pequeno galpão com paredes azulejadas, em meio a um amontoado de folhas secas, o IML de Maceió abandonou ossadas humanas inteiras, algumas delas com identificação.

Úmeros (ossos superiores dos braços), fêmures (os das coxas), pedaços de costelas e ao menos dois crânios estão espalhados pelo local, desativado há cerca de três anos.

Há material humano sobre os balcões do espaço que, embora coberto, tem as paredes vazadas, pois era usado para a análise de corpos putrefatos, que exalavam forte odor.

Parte das ossadas ainda está dentro de sacos feitos para transportar cadáveres. Um dos ossos traz uma etiqueta vermelha numerada, do Neac (Núcleo de Estatística e Análise Criminal), da Secretaria de Defesa Social de Alagoas.

A Folha encontrou as ossadas duas semanas atrás, ao visitar o antigo Instituto Médico Legal da capital alagoana. Foi numa daquelas salas que, em 23 de junho de 1996, os corpos de PC Farias e da namorada, Suzana Marcolino, foram examinados.

O material está jogado no galpão, localizado num terreno baldio habitado por um bando de gatos, desde ao menos 2013. Naquele ano, o IML passou a funcionar em instalações anexas e desativou a antiga, que pertence à Ufal (Universidade Federal de Alagoas), deixando para trás os ossos. O prédio é tombado.

Segundo o médico legista Fernando Marcelo de Paula, diretor do IML desde o ano passado, o Estado não pode retirar as ossadas sem antes fotografá-las e classificá-las.

Para isso, precisaria pagar hora extra aos legistas, mas não há dinheiro para o serviço, diz o diretor. O médico afirma que vem tentando um acordo com a Ufal, que tem vínculos com dois legistas do IML, para cobrir os custos. Segundo ele, há um quartinho trancado no mesmo terreno com mais ossadas.

DESCASO HISTÓRICO

O IML de Maceió possui um histórico de problemas. Em 2012, legistas entraram em greve por 15 dias. O Conselho Regional de Medicina de Alagoas apontou “condições subumanas e indignas” de trabalho após vistoria no local.

A falta de água era frequente no prédio. Moscas se aglomeravam nas paredes, e urubus sobrevoavam o terreno. Durante a paralisação, corpos ficaram jogados no chão. Alguns acabaram transferidos para o IML de Arapiraca, a mais de 130 km de Maceió. Pelo menos 184 foram enterrados sem atestado de óbito. Um ano depois da greve, a Justiça determinou que os mortos sepultados sem documentação fossem exumados.

Ainda em 2013, um novo prédio para o instituto começou a ser erguido, mas problemas de construção encareceram a obra, o que atrasou a entrega. A conclusão está prevista para o próximo ano.

PROMESSA

De acordo com o diretor do instituto, as ossadas humanas abandonadas no prédio desativado do IML deverão ser retiradas nos próximos dias.

Segundo ele, o instituto possui 16 legistas (o necessário, segundo ele, seria o dobro). “Temos que fotografar e classificar os ossos de forma responsável. Não podemos tirá-los de qualquer jeito”, diz.

O médico diz ainda que Maceió não tem um ossuário para armazenar as ossadas de corpos não identificados e que os enterros de indigentes são feitos, hoje, na capital, num rodízio entre seis cemitérios, por falta de espaço.

A Ufal, dona dos prédios, afirma em nota que a responsabilidade sobre o material é do IML e que, ainda em 2014, a diretora do Instituto de Ciências Biológicas e da Saúde, professora Iracilda Maria de Moura, vistoriou as instalações e identificou “a exposição de restos humanos”.

À época, a universidade notificou o IML para tomar alguma providência, segundo a assessoria da instituição. Nada, porém, foi feito e o material continuou no local.

A universidade afirmou que seu vice-reitor, José Vieira, encaminhou na quarta-feira (22), um dia antes de ser procurado pela reportagem, um ofício solicitando “a devolução do prédio e requerendo a remoção de equipamentos deteriorados e a correta destinação de ossadas”.

Fonte: Folha de S.Paulo

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