Depoimento de Lula a Moro é marcado por tensão, troca de farpas e ironias

O petista chamou o processo de “ilegítimo” e “injusto” e disse a Moro que iria responder às perguntas.
14/09/2017 09h07 - Atualizado em 14/09/2017 16h28
Foto: Reprodução

Em um clima bem diferente do primeiro encontro entre ambos no tribunal, o depoimento do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ao juiz Sergio Moro foi marcado pela tensão, rispidez – em mais de um momento, houve aumento do tom de voz -, ironias e troca de farpas, que envolveu até o Ministério Público Federal e a defesa do petista.

O depoimento já começou tenso. Lula chamou o processo de “ilegítimo” e “injusto” e disse a Moro que iria responder às perguntas, embora achasse que deveria fazer diferente porque no primeiro processo – o do tríplex do Guarujá – ele foi condenado a nove anos e meio de prisão por corrupção passiva e lavagem de dinheiro. “Eu deveria mudar tudo porque o senhor me acusou”, disse Lula. “Não, eu não acusei”, rebateu Moro, sorrindo – na verdade, quem acusou foi o MPF; o juiz condenou. “Eu deveria fazer um novo depoimento”, resmungou Lula.

Em outro momento, Lula aproveitou uma pergunta da procuradora Isabel Groba Vieira para lançar uma farpa em direção a Moro, lembrando uma nota em que o juiz rebateu a acusação de Rodrigo Tacla Durán, ex-advogado da Odebrecht, que disse que um amigo do magistrado, Carlos Zucolotto Júnior, intermediava facilidades em acordos de delação premiada. Moro lamentou que tivessem dado crédito “ao relato falso de um acusado”. Lula, ao ser questionado sobre a acusação de um delator, disse. “Eu poderia utilizar uma fala do doutor Moro. Não é correto ficar utilizando pessoas que são acusadas (…) para acusar um inocente.”

Questionado pela procuradora se conhecia um e-mail trocado entre Paulo Okamotto, diretor do Instituto Lula, e João Louveira, diretor da Odebrecht, Lula foi ríspido. “A senhora não pode ficar perguntando pra mim de e-mail de João falando com a Maria. Eu sou o Lula. Tem algum e-mail para mim?”, afirmou. Moro intercedeu: “É uma pergunta normal, o senhor tem conhecimento disso ou tem conhecimento daquilo”, afirmou.

Nas respostas, Lula se referiu várias vezes à procuradora como “querida”, ao que foi repreendido pela representante do MPF. “Pediria que o senhor ex-presidente se referisse ao membro do Ministério Público pelo tratamento protocolar devido”, disse. “Como é que seria? Doutora?”, perguntou Lula. Moro interveio de novo. “Peço escusas, não percebi isso de maneira tão clara. Sei que, evidentemente, o senhor ex-presidente não tem nenhuma intenção negativa ao utilizar esse termo ‘querida’. Peço que não utilize, Pode chamar de doutora, senhora procuradora. Perfeito?”, disse. “Ah, tá bem, tá bem”, assentiu Lula.

A tensão voltou a subir quando a procuradora citou um e-mail de Alexandrino Alencar, ex-diretor da Odebrecht, no qual falava sobre a relação com a Petrobras e a importância do diretor PR, que seria Paulo Roberto Costa, um dos delatores da Lava Jato. O advogado Cristiano Zanin Martins, que defende Lula, interveio para dizer que havia uma petição questionando o e-mail, que seria falso. Moro reclamou que o advogado estava intervindo com muita frequência e atrapalhando a audiência. “A lei me dá esse direito”, disse. “Não dá não”, rebateu Moro. “Esse documento é objeto de incidente de falsidade, que ainda não foi processado [avaliado pela Justiça]”, completou Zanin. “Perfeito, mas isso impede de ser feita a pergunta ao seu cliente?”, indagou Moro. “Isso impede sim”, tentou dizer Zanin, ao que foi interrompido por Moro. “Não, não impede.”

“O doutor já colocou o seu ponto”, continuou ao juiz dizendo que a audiência era para ouvir Lula, ao que Zanin rebateu: “Eu não terminei o meu raciocínio”. Moro perguntou se Lula tinha medo de responder à pergunta. “Medo não tenho, medo nenhum. Vossa Excelência não respeita a defesa, está mais uma vez claro que Vossa Excelência não respeita a defesa”, disse Zanin. “O doutor está errado, o incidente está sendo encaminhado, o doutor não precisa intervir na audiência a todo momento porque isso é perturbador”, rebateu Moro. “Farei a intervenção sempre que for necessário e Vossa Excelência não poderá me impedir”, continuou Zanin. Lula interveio. “Vamos voltar à normalidade aqui”, disse.

Em outro momento, a procuradora questiona Lula sobre depoimento de Marcelo Odebrecht em que ele diz que fez doações de 4 milhões de reais para o Instituto Lula entre o final de 2013 e 2014. “O senhor sabe por que essas contribuições foram feitas”, pergunta. Lula, irritado, sobe o tom: “A Odebrecht não tinha que pedir a opinião do Lula para fazer doação porque o Lula não é diretor do Instituto Lula.”


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