Professor que comparou cerveja escura a mulher negra se torna réu por racismo

Em uma foto postada nas redes sociais segurando uma cerveja, ele disse: “Para ninguém achar que eu não gosto de afrodescendente. Nega gostosa”.
18/09/2017 14h35 - Atualizado em 19/09/2017 10h27
Foto: reprodução

Um professor universitário do Instituto Federal Fluminense (IFF), identificado como Maurício Nunes Lamonica, em Campos dos Goytacazes, no norte do estado do Rio de Janeiro, se tornou réu por racismo após comparar uma cerveja escura a uma mulher negra. A 2ª Vara Federal de Campos aceitou denúncia feita pelo Ministério Público Federal contra o docente.

O professor, em março do ano passado, postou uma mensagem nas redes sociais comparando a mulher negra a uma cerveja escura. Em uma foto segurando uma cerveja, ele disse: “Para ninguém achar que eu não gosto de afrodescendente”. E acrescentou: “Nega gostosa. Uh! Foi mal”.

Para Justiça Federal, a declaração do professor sugere desprezo pela população negra e se encaixa em discriminação pela cor de pele. Na denúncia, o MPF reforça que o racismo não está apenas na comparação entre a cerveja e as mulheres negras, mas também na ironia.

Na denúncia apresentada à Justiça, os procuradores destacam também o fato de a agressão ter sido feita por um professor, que tem o papel de educar, e ter sido disseminada pela internet, com rápida repercussão. Na época, o professor foi denunciado pela Comissão de Igualdade Racial da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) de Campos, que elaborou uma notícia-crime contra Lamonica.

Risco a mulheres negras
O movimento de mulheres negras chama atenção para a relação entre machismo e racismo, que reforça estereótipos de gênero e contribui para aprofundar desigualdades. A coordenadora da organização não governamental Criola, Lúcia Xavier, vem alertando para a sexualização de mulheres negras, que tem um fundo histórico, e é responsável pela desvalorização da vida delas. O resultado, afirma, está no crescente índice de violência.

Pesquisa da Organização Mundial de Saúde (OMS) constatou, por exemplo, que o número de mortes violentas de mulheres negras aumentou 54% em dez anos, entre 2003 e 2013, chegando 2.875 vítimas. No mesmo período, o número de homicídios de mulheres brancas caiu 9,8%.

A resposta da defesa do réu
O advogado do professor do IFF, Amyr Moussalem, afirmou que Lamonica não foi notificado e prefere não se pronunciar. Ele adiantou, no entanto, que o acusado vem participando de diversas audiências sobre o tema e inclusive já se retratou publicamente.

Por meio da assessoria de imprensa, o Instituto Federal Fluminense informou que na época do ocorrido abriu um processo administrativo disciplinar para apurar a conduta do professor e decidiu pela aplicação de uma advertência. Segundo o instituto, ele ficou afastado das atividades durante o processo e atualmente voltou a dar aulas no ensino médio.

Raquel Júnia – Agência Brasil


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