Dependente da Venezuela, Roraima vive apagões constantes de energia

Neste ano, até setembro, foram registrados 65 blecautes no estado.
18/10/2018 11h07 - Atualizado em 18/10/2018 14h59
Foto: Reprodução

O recepcionista do hotel sabe responder na ponta da língua: “Ontem foram três e hoje, mais cinco”, disse na última terça-feira (9) Robson Machado, sobre os apagões no fornecimento de energia elétrica em Boa Vista
(RR). Não seriam os únicos na semana. Desde a última segunda-feira (8), a capital roraimense registrou ao menos dez interrupções de energia, algumas de curta duração e outras de ao menos meia hora. Único estado desconectado do SIN (Sistema Interligado Nacional), Roraima depende do fornecimento de energia da Venezuela desde 2001, além de quatro termelétricas.

Neste ano, até setembro, foram registrados 65 blecautes em Roraima, segundo a Aneel (Agência Nacional de Energia Elétrica), concentrados no súltimos três meses. Em julho foram 13, em agosto ocorreram mais 10 e, em setembro, 34. Para a Aneel, isso “demonstra a frequente descontinuidade no sistema”.

“É uma situação que não se sustenta. Sem garantia de energia, ninguém se interessa em investir”, disse o comerciante Antonio Queiroz. Os apagões energéticos foram discutidos durante todo o primeiro turno da campanha eleitoral e viraram uma das bandeiras da primeira indígena eleita para a Câmara dos Deputados.

A energia proveniente da Venezuela tinha sido deixada de ser usada em setembro, mas voltou a abastecer o Estado desde segunda, de forma complementar. Por ter custo de geração mais baixo, a energia do país vizinho tem prioridade de uso, segundo a Eletrobras. Como no período diurno havia mais interrupções da energia venezuelana, segundo o CMSE (Comitê de Monitoramento do Setor Elétrico), optou-se por manter as termelétricas em uso durante o dia e a energia importada, das 18h às 6h. Se operarem ininterruptamente, as quatro térmicas para abastecer Roraima têm consumo diário de 1 milhão de litros de óleo diesel, o que pode representar custo de até R$ 3,8 milhões.

O mais recente projeto de interligação do estado ao sistema foi anunciado em 2015  pela ex-presidente Dilma Rousseff (PT) e deveria estar concluído em três anos, ou seja, até o fim de 2018. Mas quase nada aconteceu. O chamado linhão de Tucuruí –considerado por políticos de Roraima como o mais viável– consiste na implantação de 721,4 quilômetros de linhas de transmissão cortando nove municípios de Roraima e Amazonas, entre eles as capitais Boa Vista e Manaus, respectivamente.

Do total, 125 quilômetros passariam dentro da terra indígena vaimiri-atroari, às margens da BR-174. Mas uma decisão judicial suspendeu os efeitos de uma licença concedida pelo Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis) por falta de consulta prévia aos índios.

Os vaimiri-atroari só autorizaram os estudos para a implantação em março deste ano. Do total, 474,3 quilômetros estão em terras de Roraima e 247,1 quilômetros, no estado vizinho. “Tem de respeitar o direito deles [índios] de serem ouvidos [no processo todo]. E temos de estudar alternativas mais baratas, como a eólica e a solar”, disse Joenia Wapichana (Rede), 44, eleita domingo a primeira mulher indígena deputada federal no país.

Para ela, Roraima tem potencial eólico e a energia proveniente do vento gera menos danos que o linhão de Tucuruí ou a implantação de uma hidrelétrica. A governadora Suely Campos (PP) disse que conseguir resolver a questão energética é uma das prioridades do estado e que o linhão passaria ao lado da BR-174, com a instalação de 250 torres na terra indígena.

Membros do governo de Suely, derrotada no primeiro turno da eleição estadual, atribuem os problemas envolvendo o fornecimento de energia como um dos motivos da não ida da governadora ao segundo turno, ao lado da crise provocada pela imigração de venezuelanos e das dificuldades financeiras no mandato.

Embora prometida por Dilma há três anos, a interligação entre Manaus e Boa Vista foi leiloada quatro anos antes, e a previsão inicial era de que a entrada em operação ocorresse em janeiro de 2015.

PROBLEMAS TÉCNICOS

A Eletrobras afirmou que as interrupções no fornecimento de energia elétrica têm ocorrido devido a problemas técnicos da linha de transmissão que vem da Venezuela e que serão minimizados num prazo de até quatro semanas. A estatal brasileira disse que a Corpoelec, empresa de energia da Venezuela, está fazendo manutenção do sistema e que, simultaneamente, a Eletrobras Distribuição Roraima tem feito testes operacionais de um novo modo de operação paralelo ao fornecimento venezuelano.

Esses testes visam adequar o sistema e implantar dispositivos para inibir a queda de carga nas principais cidades do estado, priorizando o fornecimento para hospitais, bancos e prédios públicos.

Segundo o Ministério de Minas e Energia, há ações definidas em conjunto com a Eletrobras Distribuidora Roraima, a Eletronorte e o ONS (Operador Nacional do Sistema) para tentar resolver o problema, como a instalação de esquemas especiais de proteção ao sistema, a gestão junto à Corpoelec para manutenção nas linhas de transmissão nos trechos venezuelanos, o reforço na manutenção das quatro termelétricas roraimenses, para ampliar a disponibilidade delas, e a instalação adicional de capacidade de geração térmica nos dois próximos anos.

Estão em consulta pública regras e diretrizes para o leilão estruturante de energia, previsto para o ano que vem.

Fonte: Estadão Conteúdo

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