‘Quero ser o Bolsonaro de saias’, diz a deputada eleita Joice Hasselmann

Jornalista foi eleita com recorde de votos para uma mulher (1 milhão) que disputou a Câmara.
18/10/2018 12h00 - Atualizado em 18/10/2018 14h59
Foto: Reprodução

Joice Hasselmann, 40, não precisou de cinco minutos com Jair Bolsonaro para sacar que tinham tudo a ver. “A gente tem almas parecidas”, concluiu após o primeiro encontro —uma entrevista em 2014
para o portal da revista Veja, para a qual trabalhava à época. O então deputado do PP estava na berlinda depois de dizer à colega petista Maria do Rosário que não a estuprava “porque você não merece”.

Não à toa “brincam que sou o Bolsonaro de saias”, diz a jornalista eleita com recorde de votos para uma mulher (1 milhão) que disputou a Câmara, pelo mesmo PSL do capitão reformado. Sua farda, na tarde de quarta (17), era um vestido de bolinhas da grife Ralph Lauren. Terminado o almoço no Parigi, restaurante do grupo Fasano no
Itaim Bibi (zona oeste paulistana), com a taça de vinho Bordeaux ainda meio cheia, continua a falar sobre o candidato “ame-ou-odeie”.

“Gostem ou não dele, ele atrai atenção.” Gostem ou não dela, também Joice é o tipo de pessoa que divide a sala. A lista de desafetos é longa. Acusou Lula de “se enraizar como câncer pelo país” e foi por ele processada (a Justiça a absolveu). Estranhou-se com Anitta após a cantora afirmar que não vota “em candidato machista”. Bolsonaro “defende a família”, enquanto funkeiros “tratam mulheres como cadela”, rebateu.

Arrumou briga até com Alexandre Frota, futuro colega do PSL na Câmara. Ele havia atacado a jornalista Rachel Sheherazade, conservadora que quer distância de Bolsonaro. Joice usou sua arma por excelência, um vídeo espalhado nas redes sociais, para fustigar “homens que se acham colunistas e não são porcaria nenhuma, gente que fazia lá filminho pornô”.

Ele pagou na mesma moeda e, em outro vídeo, a definiu como uma “balzaquiana da comunicação”. Os dois entraram na leva de influenciadores digitais, que conquistaram votações neste ano. Somadas todos os seus perfis em redes sociais, Joice calcula ter três milhões de seguidores, isso sem contar o potencial multiplicador que uma publicação alcança ao ser reproduzida por outros.

Ela põe na conta da sua usual diatribe acusações de plágio que teria feito na carreira jornalística. O Sindicato —categoria que odeia, a não ser que seja patronal— dos Jornalistas do Paraná chegou a bani-la após 23 profissionais afirmarem que ela copiou dezenas de reportagens, o que Joice nega. “Arrumei inimigos dentro da imprensa. Nunca fiz parte daquele lixo de sindicato.”

Opositores a acusam de alimentar fake news. No primeiro turno, divulgou um vídeo, por exemplo, em que um eleitor aperta o 1 e, automaticamente, aparece o candidato Fernando Haddad (PT). O Tribunal Regional Eleitoral de Minas enquadrou a notícia como falsa. Joice diz à Folha que “pegaram um vídeo só”, mas haveria “mais de cem vídeos diferentes” com fraude igual.

Nenhuma prova veio à tona. “Vem todo mundo com essa conversa de ‘não, não, não, não dá atenção que é fake news’. Engana o povo e pronto, acabou”, afirma a âncora da rádio Jovem Pan.

Em 2016, publicou “Sergio Moro – A História do Homem por Trás da Operação que Mudou o Brasil”, biografia para lá de benevolente com o juiz da Lava Jato. Num trecho, diz que o menino fã de super-heróis da Marvel “mal sabia” que viraria “um herói para a população”. Moro foi ao lançamento. Em janeiro, estreou em seu canal no YouTube “Pensando Juntos”, série em que romantiza a rotina de uma jornalista investigativa que desbarata escândalos de corrupção. “Tudo é baseado em fatos reais e as histórias serão de arrepiar”, ela descreveu à época o conteúdo, que a traz de sobretudo vermelho recebendo informações “top secret” de delatores encapuzados, num cenário pouco crível em que jornalistas circulam de Porsche.

Joice gosta de se definir como “madrinha da Lava Jato” e, caloura na política, diz querer ser “o braço forte de Jair” no Congresso. Feminismo? Tem horror à causa. “Gente chata pra caramba. [Mulher] arrancando blusa pra colocar peito na rua, que isso?” Critica feministas que, por conveniência, teriam “esquecido” de exaltar que
ela e outra voz conservadora, Janaina Paschoal, coautora do impeachment de Dilma Rousseff, obtiveram votações histórias para a Câmara e a
Assembleia Legislativa de São Paulo, respectivamente. Brigas com Jean Wyllys (PSOL) e Gleisi Hoffmann (PT), presidente do PT que passará de senadora a deputada em 2019, têm de ser compradas “por uma mulher ou vira mimimi”, afirma Joice. Ela prevê um escarcéu da esquerda caso um homem parta para esse tipo de enfrentamento. Aí entraria a novata em Brasília.

A paranaense está acostumada com confrontos desde os tempos de estudante na Universidade Estadual de Ponta Grossa, na cidade onde esta descendente de europeus cresceu. Era a exceção conservadora num ambiente predominantemente de esquerda. Uma turma metida a besta, daquelas que “põe uma batinha [da marca] Le Lis Blanc, joias ripongas [que custam caro] e fazem cara de bicho grilo”, conta. “Veteranos me achavam com cara de patricinha.

E eu era a mais pobre.” Sua infância foi sem muitos recursos, afirma. Aos oito anos, vendia chineque, um pão doce de origem alemã, que a mãe preparava. Se colegas olhavam para ela e pensavam “nossa, que mulher dondoca”, diz, “ninguém imaginava que saí de uma favela rural”. Da família, foi a primeira a conquistar um diploma universitário.

Evangélica da linha batista, tem como grande ídolo o avô José, “um homem temente a Deus”, que antes de dormir se ajoelhava para rezar na beira da cama. Joice diz que não pretende se unir à bancada evangélica na Câmara por não acreditar nessas subdivisões do Congresso. Para ela, há dois lados na história.

“Vou compor a bancada do bem. E a outra é a do mal, que vai tentar atrapalhar Brasil”, diz a futura parlamentar que, nas redes sociais, receita um pesticida contra a oposição: “Bolsonaro neles”.

Fonte: Folha de São Paulo

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