Foi tortura, diz familiar de adolescente agredida por médico durante parto

O médico estourou a bolsa da adolescente com o dedo sem nem mesmo avisar, diz familiar da paciente.
21/02/2019 09h35 - Atualizado em 21/02/2019 15h51

Foto: Reprodução


“Não foi agressão, foi tortura”, é o que diz a familiar de uma adolescente de 17 anos agredida pelo médico Armando Andrade Araújo durante o trabalho de parto. O episódio aconteceu em maio de 2018 no hospital Balbina Mestrinho, em Manaus, mas as imagens começaram a circular apenas nesta semana. Araújo será indiciado pela Polícia Civil por vias de fato e injúria e deve prestar depoimento na próxima semana.

No vídeo, é possível ver quando o profissional de saúde fala para parturiente descer mais para ficar próxima dele e é quando ela reclama de uma cãibra na perna direita.

Quando uma enfermeira vai fazer uma massagem, a sogra diz que a nora não tem condições de ter um parto normal e, chorando, pede para que seja feita uma cesariana. Com a negativa de Araújo, a mulher diz que vai “chamar a imprensa”. “Pode chamar quem for, pode chamar. É bom que eles veem que ela não ajuda”, diz o médico.

Após a discussão, o médico se exalta, bate na região da virilha da paciente. Ela começa a chorar e alguém faz o exame de toque para medir a dilatação. Segundo uma familiar da adolescente que pediu para não ser identificada, a gestante deu entrada no hospital com dores e contrações e não teve nenhuma restrição durante o pré-natal. A mulher conta que foi dada ocitocina sintética à menina para acelerar as contrações e que outros medicamentos também foram administrados.

“A bolsa dela foi estourada com o dedo, sem o médico avisar que faria isso”, diz. Ainda de acordo com o relato, a parturiente já estava fraca no momento flagrado. Parente de adolescente agredida durante parto em Manaus A família decidiu registrar um boletim de ocorrência na Delegacia Especializada em Crimes Contra a Mulher (DECCM) apenas ontem, depois de o vídeo ter se tornado público e compartilhado em redes sociais. Os familiares dizem que não tinham acesso às imagens e não sabem quem as divulgou.

Ontem, a adolescente pediu que fosse ouvida por uma mulher e prestou depoimento à delegada Débora Mafra, da DECCM. Segundo Débora, o caso será encaminhado ao 1º Distrito Integrado de Polícia (DIP) e o médico será indiciado por vias de fato e injúria.

Como a violência obstétrica não é um crime previsto na legislação brasileira, “são analisadas condutas criminosas que são tipificadas pelo código penal”, explica a delegada.

Ela completa que antes do boletim de ocorrência registrado ontem, o médico já tinha contra ele cinco denúncias de casos parecidos feitas desde 2013. Além disso, a polícia investiga um suposto episódio de coação, em que uma mulher se dizendo secretária do médico, teria ligado para a vítima e oferecido dinheiro para que o caso não fosse para frente. Débora conta que, no relato feito à polícia, a menina estava muito fragilizada. “Quando ela lembra das cenas que passou, chora.

Ela ficou com dificuldades para andar, porque o médico colocou as mãos tentando abrir a vagina dela para tirar o bebê”. Armando Araújo foi preso em 2015 durante a Operação Jaleco Branco, da Polícia Civil do Amazonas, suspeita de integrar uma quadrilha que extorquia mulheres para fazer partos e outros procedimentos em hospitais públicos de Manaus.

Ele chegou a ser foi condenado a dois anos de prisão, mas teve a pena convertida em prestação de serviço à comunidade, segundo o Ministério Público do Estado do Amazonas e continuou solto.

Outro Lado

Em nota, a Secretaria de Estado de Saúde do Amazonas (Susam), responsável pelo hospital Balbina Mestrinho, informou que abriu sindicância na última quarta-feira (20) para apurar a conduta do médico. A Susam
também pediu o afastamento do profissional ao Instituto de Ginecologia e Obstetrícia do Amazonas (Igoam), empresa em para qual o profissional trabalha e presta serviço ao estado. Ainda segundo o comunicado, o fato divulgado no vídeo é de 2018 e ocorreu há nove meses, mas “a secretaria só tomou conhecimento nesta terça-feira, por meio das redes sociais”.

“Antes disso, não houve qualquer registro na maternidade ou na ouvidoria de denúncia feita pela paciente ou pela família”, informou o órgão.

O secretário estadual de saúde, Carlos Almeida, convocou a direção do Igoam para reunião hoje, a fim de reiterar o pedido de afastamento do médico. Também em nota, o Conselho Regional de Medicina do Estado do Amazonas (Cremam) disse que abriu uma sindicância para investigar o ocorrido.

Segundo o conselho, caso seja constatada alguma infração ao Código de Ética Médica, um processo ético profissional será aberto.

Violência obstétrica e como denunciar 

Uma em cada quatro mulheres sofre algum tipo de violência durante o parto, seja física ou psicológica. É o que mostra a pesquisa “Mulheres brasileiras e gênero nos espaços público e privado”, publicada em 2010 pela Fundação Perseu Abramo.

A violência obstétrica pode acontecer no pré-parto, parto, pós-parto e até aborto e pode ser física ou psicológica. Em sua definição, ela acontece quando profissionais de saúde fazem intervenções ou procedimentos sem informar e receber o consentimento da mulher, como mostra uma publicação do Ministério da Saúde. São exemplos de violências obstétricas: Ainda segundo o estudo, as agressões mais comuns são gritos com as pacientes, procedimentos dolorosos sem consentimento ou informação, falta de analgesia e negligência médica.

Como violência obstétrica não é considerada crime no Brasil, não existe uma ferramenta específica para denúncia. Mesmo assim, se a mulher tiver qualquer direito violado, pode denunciar o profissional de saúde e o hospital ligando para o 180 (disque violência contra a mulher) ou 136 (disque saúde).

Negar água ou comida durante o trabalho de parto Imobilizar braços e pernas ou movimentos que causem desconforto físico ou psicológico

Imobilizar braços e pernas ou movimentos que causem desconforto físico ou psicológico

Negar informação ou a presença de um acompanhante Fazer a cesárea ou utilizar procedimentos como a episiotomia – corte na região da vagina – por conveniência médica

Fazer a cesárea ou utilizar procedimentos como a episiotomia – corte na região da vagina – por conveniência
médica

Ainda segundo o estudo, as agressões mais comuns são gritos com as pacientes, procedimentos dolorosos sem consentimento ou informação, falta de analgesia e negligência médica.

Como violência obstétrica não é considerada crime no Brasil, não existe uma ferramenta específica para denúncia. Mesmo assim, se a mulher tiver qualquer direito violado, pode denunciar o profissional de saúde e o hospital ligando para o 180 (disque violência contra a mulher) ou 136 (disque saúde).

Em casos de atendimento pelo plano de saúde, a denúncia também pode ser feita na Agência Nacional de Saúde
Suplementar (ANS): 0800-701-9656.

Em hospitais particulares, a ouvidoria da própria instituição pode ser um caminho, além do PROCON (Órgão de Proteção e Defesa do Consumidor) de cada região do país. Caso a mulher não tenha como contratar um advogado para cuidar do caso, pode falar com a Defensoria Pública, que oferece auxílio gratuito, independentemente de atendimento público ou privado.

Fonte: UOL Notícias

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