31/10/2015 11h14 - Updated 31/10/2015 11h14

O que perdemos (e deixamos de ganhar) quando uma livraria sai de cena?

Illustration: Eric Lima
Illustration: Eric Lima

Avenida Getúlio Vargas, onde metade do trânsito de Manaus passa rápido, vindos de qualquer lugar e indo para lugar nenhum. Mas cortando o início dessa avenida, ainda no começo da Ramos Ferreira, havia um destino bem específico, que por vinte e cinco anos reuniu mentes curiosas e pensadores afiados.

Soubemos da notícia há poucos dias, mas a progressiva desarticulação que o circuito cultural da cidade de Manaus vem sofrendo nos últimos anos já profetizava algo assim: a Livraria Valer, um dos principais points de leitores, students, professores e escritores do Amazonas, anuncia que fechará as portas nas próximas semanas.

Unfortunately, em um país em que a agressão institucional a professores e o fechamento de escolas não causa escândalo, o de uma livraria talvez pouco signifique para a maioria, mas para uma metrópole como Manaus, que ainda é mantida política, cultural e geograficamente afastada do resto do país, estamos falando do enterro de um gigante.

A livraria trouxe para o leitor manauara o registro literário de sua própria terra, mostrou-lhe sua exuberância, o histórico das lutas de seus ancestrais e sua própria luta diária, seja em verso ou prosa, ensaio ou poesia, em linhas de palco ou diálogos com deuses estranhos, cada letra e sílaba manuseadas pela arte de alguns dos maiores nomes que o Norte teve o orgulho de gerar. Entre suas prateleiras, pudemos conhecer o culto a natureza de Astrid Cabral, a crueza de Márcio Souza, Tenório Telles e sua habilidade de reflexão, a contemplação da memória por Milton Hatoum e tantos outros que cometo a injustiça de não citar, after all, foi um quarto de século de livros publicados e de registro cultural resgatado por sua própria editora (que vai permanecer em funcionamento, sempre importante ressaltar), e de novos talentos sendo apresentados ao público.

Um deles é a jornalista Alessandra Leite, autora do tocante O Leão e a Libélula (2013), também parte do acervo da Valer. “Acredito que a livraria Valer faz parte da história de Manaus. Are 25 anos e é muito triste vê-la fechar as portas. É realmente lamentável. É um caminho muitas vezes inevitável esse fechamento, talvez por falta de recursos para modernizar e diversificar os produtos, aliando tecnologia e tradição. Infelizmente não foi possível. Eu só posso lamentar. Pessoalmente a livraria tem um significado forte pra mim, pois foi lá que lancei meu primeiro livro e isso ficará pra sempre na minha vida. Foi palco de tantas oficinas, lançamentos de grandes escritores e poetas desse Estado, dos quais eu sou apenas uma aprendiz. É uma perda inenarrável realmente. Temos de agradecer pela continuidade da editora, pois dela dependem tantas obras que estão por vir”, says.

Kenedi Azevedo, mestre em Literatura pela UERJ e um dos principais responsáveis pela revista literária Decifrar, enfatiza a contribuição da livraria para o desenvolvimento cultural de Manaus: “A Livraria Valer ficou conhecida por ser um dos mais importantes meios de divulgação da literatura produzida no Amazonas, juntamente com a Editora Valer. O diferencial da Livraria Valer era a venda de livros com temática amazônica e o seu envolvimento com os movimentos e eventos culturais do estado do Amazonas, como o Flifloresta. Esse evento, que teve suas sete edições em quatro anos, conseguiu trazer o escritor para perto do leitor e levou livro para muitos novos leitores do interior do estado. O importante também é que a Editora continuará com o trabalho de promover aquilo que se produz intelectualmente. na região. Muitas obras esquecidas até pouco tempo foram resgatadas pela Editora Valer e tornaram conhecidas do público e da academia, sanando ainda o ilhamento intelectual que se configurava desde sempre em Manaus”.

However, também faz uma observação quanto ao modus operandi da Valer, que também foi levantada por Alessandra: “A questão é que a livraria não acompanhou as modificações impostas pelo imediatismo que as pessoas vivem. Quando se quer comprar um livro, basta ir à Internet que em apenas alguns cliques você terá acesso ao produto. As grandes livrarias como a Saraiva, Travessa, e a Cultura, não vendem somente livros, vendem também CD’S, DVD’S, têm um departamento infantil muito bem preparado e uma área social para eventos e palestras, além das lojas online.”.

Estamos falando aqui do mercado cultural (expressão que por alguma razão me alfineta), estamos falando da expressão de uma cultura local competindo com o avanço sempre crescente da cultura de massa, e do esforço hercúleo de nadar contra essa corrente, como a administração da livraria declara na maioria das entrevistas sobre a decisão de encerrar as atividades, bem como a dificuldade em desenvolver um trabalho conjunto com os órgãos públicos responsáveis pelo fomento a atividade cultural no Amazonas. A Livraria Valer teve um fardo pesado nas costas, e uma responsabilidade grande demais para lidar sozinha, me arrisco a dizer.

Manaus sempre teve um progresso lento no que diz respeito ao incentivo a produção artística local, com um interesse político mínimo em oxigenar esse setor e muito eficaz em desarticular quaisquer interessados em mobilizá-lo. Com a literatura não foi diferente: uma vez consagrada a nossa constelação de célebres autores, a sensação que o público tem é que muito pouco foi produzido no cenário local. Não que escritores novos fossem completamente desprovidos de meios para se destacar (mas quase isso), só não houve espaço para novas tendências, vanguardas, gente querendo fazer coisas que não se costumava fazer uma década atrás.

O mercado local quase faz o amazonense esquecer que existem artistas produzindo seu material, distribuindo-o quase de porta em porta, escrevendo e ilustrando por sua própria conta e risco e vendendo pelo preço que os pedestres estiverem dispostos a pagar, leiloando o próprio esforço para que sua voz seja ouvida. Os eventos ditos literários promovidos na cidade nos últimos anos focaram em tudo, menos literatura, tampouco em autores emergentes: pagou-se quantias exageradas (o que já é risível por si só) para se consumir mais do mesmo, para ver mais do mesmo, e eu pergunto: que público se dispõe a sair em um dia quente para adquirir aquilo que já não é novidade para as demandas que nascem com o progresso?

Imagino que, com o país na situação em que está, negócios como o da Livraria Valer sejam realmente de difícil manutenção, mas a justificativa de que ela foi incapaz de acompanhar a mudança no perfil de leitor ou nas tendências de mercado sinceramente me desconcerta muito. Por que haveriam de lutar contra a correnteza? Caso a falta de recursos fosse o motivo, penso que uma progressão gradativa, passo a passo, seria uma solução mais saudável, quem sabe promover eventos menores que o Flifloresta, peregrinar em algumas escolas com trabalhos como o da Alessandra Leite, disponibilizar outros produtos culturais também produzidos na região, formas alternativas de divulgação da atuação da livraria, perhaps. Tempos desesperados, medidas desesperadas, mas não investindo esforço em algo um tanto fútil como resistir às mudanças do mundo.

Quanto ao perfil de leitor que não se pode acompanhar, bem, é realmente difícil lidar com um público que está pouco familiarizado com a perspectiva de quem produziu o material. Volto a bater no ponto da vanguarda: o que o rapaz que vende fanzines na esquina tem a oferecer? A moça que se esforça para produzir seus contos com uma impressão improvisada e tinta guache? O poeta que reinventa a forma do verso, mas é subestimado por não ter um diploma de Letras ou Jornalismo, ou um pai influente? O mercado editorial de Manaus faz essas perguntas? Porque garanto que, se tais personagens estão trabalhando com empenho no cenário marginal de Manaus, certamente atendem a algum tipo de demanda, têm quem se relacione com seu trabalho, e estando eles na sarjeta, estejam também mais perto do povo, mais perto do núcleo de quem querem que os leia, pois ser um autor regional é um pouco diferente de ser um autor regionalista. A Livraria Valer tinha a proposta de incentivar a produção literária em Manaus, mas me preocupo quando leio que a Editora Valer, que ainda permanecerá ativa, não tem planos de mudar sua linha editorial. Como alguém que sabe pouco de como uma empresa funciona, talvez eu quem não tenha entendido muito bem a declaração.

Independente de nossos lamentos, objeções ou da nostalgia, o fato é que a Livraria Valer, uma das últimas referências em resgate e preservação histórica e divulgação da literatura produzida no Amazonas (ou de parte dela), foi vencida pela confusão econômica que desestrutura nosso país. Amazonians, nós perdemos não só uma livraria, mas uma gama de possibilidades, assim como temos perdido editais de fomento à cultura, como perdemos alguns festivais culturais que por anos foram a nossa esperança de cultivar a arte como prática e experiência constantes. Brasileiros, perdemos uma boa oportunidade de conhecer o Norte de verdade, perdemos um pouco do estímulo a arte em nosso país.

Perdemos, e continuamos a perder.

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