03/10/2015 12h12 - Actualizado 3/10/2015 12h12

A traída foi Capitu

“E Capitu? Traiu?”
foto: globo
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Como primeiro texto da coluna “Você com Texto”, vamos discutir uma das maiores dúvidas da literatura brasileira: a fidelidade de Capitu. Raramente se encontra um brasileiro que não tenha ouvido uma referência à famosa adúltera. A dúvida veio de uma das obras mais conhecidas do igualmente conhecido Machado de Assis, Dom Casmurro (1900), e por muito tempo, a culpa de uma das principais personagens do romance foi certeza. Lembro de um tio que aprendeu a chamar meninas bonitas de Capitu, e não raro uma vizinha acusava aquela jovem sedutora que passava na rua de dar uma de Capitu em cima do marido.

O livro conta sobre as suspeitas que Bentinho tinha de sua esposa, Capitu, quem acreditava ter um caso com seu melhor amigo, Escobar. A história passa pela infância de Bentinho, sempre muito protegido pela mãe autoritária, por sua adolescência, quando se apaixonou pela jovem Capitu, a menina com olhos de cigana oblíqua e dissimulada, e conheceu Escobar em um seminário, até sua vida adulta. O drama começa quando Escobar morre e Bentinho repara no luto de Capitu, o que o faz suspeitar de um possível relacionamento entre os dois. Bentinho inferniza a mulher com seu ciúme, duvidando até mesmo da legitimidade de seu filho, acabando por ter extrema certeza da infidelidade de Capitu, mesmo sem conseguir uma confissão.

Narrado sempre do ponto de vista de Bentinho, o livro nos leva a tomar o lado do marido, que começa a lembrar-se da adolescência da esposa a fim de saber se lá já havia sinais de uma adúltera. Até mesmo os profissionais que estudavam a obra de Machado afirmavam que Capitu fora infiel, e por muitas décadas, isso estava fora de questionamento. Bentinho, o marido dedicado, o amigo fiel, que foi enganado pelas duas pessoas que mais confiava, o menino cristão que não desejava nada além de agradar a mãe, a menina que amava, o amigo que adorava.

Os tempos mudaram, outras opiniões surgiram e tanto Capitu quanto Bentinho foram visto de outro ângulo. O ciúme de Bentinho começou a parecer viciado demais, Capitu pareceu uma dona de casa mais competente e ativa, a cara do filho deles já não pareceu mais tanto com Escobar, pero, sem aparecer nenhuma confissão ou flagra nessas releituras, a dúvida permaneceu: E Capitu? Traiu?

O livro não se preocupa em deixar isso claro, mas vamos a alguns fatos, os que levaram alguns a questionar o caráter de Bentinho: a mãe o criara cercado de privilégios, sempre tomou as decisões pelo menino, criou-o para ser padre, pagou sua faculdade e lhe deu direção até o momento de sua morte. Um garoto mimado, reconheçamos, que cresceu com medo de contrariar a mãe, que nunca precisou tomar as rédeas da própria vida, um mauricinho por definição. Muchas veces, durante seu casamento, sentia que novamente perdia as rédeas, reconhecendo que “Capitu era mais mulher do que ele era homem”, mi, sempre ofuscado pela vontade feminina mais próxima, desenvolvera uma afeição muito forte por Escobar.

E o que raios isso tem a ver com Capitu? Traiu?

Na real? Tudo isso me leva acreditar que Bentinho era gay, e um de personalidade fraca. Imaginem um menino que cresceu cercado de mimos, mas sem voz, sem direito a escolha, tendo lidar com pessoas bem mais voluntariosas que ele. Não é a primeira pessoa que você imagina lidando com a própria homossexualidade, ainda mais em uma época em que isso era impronunciável. E o impronunciável vinha fácil para alguém que já não falava.

A atenção que Escobar recebe durante a história é consideravelmente maior do que Capitu: “Chamava-se Ezequiel de Sousa Escobar. Era um rapaz esbelto, olhos claros, um pouco fugitivos, como as mãos, como os pés, como a fala, como tudo. Quem não estivesse acostumado com ele podia acaso sentir-se mal, não sabendo por onde lhe pegasse. Não fitava de rosto, não falava claro nem seguido; as mãos não apertavam as outras, nem se deixavam apertar delas, porque os dedos, sendo delgados e curtos, quando a gente cuidava tê-los entre os seus, já não tinha nada. O mesmo digo dos pés, que tão depressa estavam aqui como lá. O sorriso era instantâneo, mas também ria folgado e largo. […] Quando ele entrou na minha intimidade pedia-me frequentemente explicações e repetições miúdas, e tinha memória para guardá-las todas, até as palavras”.

Se dar uma atenção tão carinhosa aos dedos, aos pés, ao sorriso, a cada palavra dita guardada na memória, não é sinal de desejo ou no mínimo de extrema afetividade, eu não sei o que é afetividade. Se Bentinho não era um homossexual reprimido, tenho certeza que tinha uma ligação homoafetiva explícita com o amigo, que, depois de morto, não podia ser mais saciada nem com conversas, nem com olhares, nem com toques ou risos. Na morte de Escobar, Bentinho não podia mais aliviar seu desejo de estar perto, e como era incapaz de lidar com a própria sexualidade, transforma sua frustração em agressividade, como todo bom garoto mimado. Capitu, que lhe dava inveja pela atitude espirituosa, foi seu bode expiatório, e como não podia ele mesmo traí-la, mesmo que na relação nunca consumada com Escobar, sentia-se traído.

Quem já foi vítima de um ciumento sabe como esse estado emocional pode deixar uma pessoa irracional, como pode fazê-la justificar os próprios erros e inseguranças em cima de outra pessoa, geralmente alguém inocente. O ciúme enlouquece, e Bentinho praticamente surta, surdo às juras da mulher de que nunca fora infiel, cego ao filho que adoecia com seus maltratos e acabou morrendo, e tudo porque não era capaz de aceitar o que sentia por Escobar, não era capaz de assumir a própria vida, não era capaz de admitir que adúltero era ele, adúltero contra sua própria natureza, adúltero contra a própria vontade, um adúltero no armário, produto de um tempo em que a opressão de uma sociedade conservadora, representada muitas vezes pela mãe de Bentinho, enlouquece ainda mais que o ciúme.

“Mas e Capitu? Traiu?”

Na minha contribuição para esse debate, digo que não. Digo que Bentinho era um homossexual que não se aceitava, que perdeu seu único alívio e descarregou suas frustrações e fraquezas na mulher, no filho e no amigo morto que já não o satisfazia, difamando-os durante anos às vistas de todo o país.
Mas essa é a minha leitura. Qual a sua?

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