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Após posse no STF, Cristiano Zanin perde popularidade na esquerda

Ministro vem sofrendo uma pressão pesada de setores da esquerda, inclusive do próprio PT, por votos considerados conservadores.

Por Natan AMPOST

02/09/2023 às 14:18 - Atualizado em 02/09/2023 às 17:03

Quando o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) confirmou a indicação de Cristiano Zanin ao Supremo Tribunal Federal (STF), o então advogado desligou celular. Enquanto o aparelho era bombardeado por mensagens de colegas e jornalistas, o futuro ministro comemorava tranquilo com um círculo íntimo a virada iminente na carreira.

Um mês após a posse no STF, o cenário é outro. O celular fora de serviço não é mais suficiente para afastar a pressão externa. E Cristiano Zanin vem sofrendo uma pressão pesada de setores da esquerda, inclusive do próprio Partido dos Trabalhadores (PT), por votos considerados conservadores. Lideranças do partido chegaram a divulgar uma resolução com recados velados ao ministro.

O voto da última quinta-feira, 30, contra o marco temporal para a demarcação de terras indígenas, ajudou a desarmar os ânimos. Em um aceno à base ideológica de Lula, Zanin recebeu a ministra dos Povos Indígenas, Sonia Guajajara, e se deixou fotografar ao lado dela antes da retomada do julgamento.

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Decisões e votos anteriores sobre pautas de costumes e direitos humanos causaram desconforto junto aos setores progressistas. O ministro foi o único a votar, por exemplo, contra a equiparação dos casos de homofobia e transfobia ao crime de injúria racial. Ele usou um argumento de ordem processual – um suposto alargamento indevido do pedido inicial – e não chegou a entrar no mérito da controvérsia. Pelo voto, foi acusado de usar artifícios formais como pretexto para não garantir direitos.

Zanin também foi contra a descriminalização do porte de maconha para consumo pessoal. “Se o Estado tem o dever de zelar pela saúde de todos, tal como previsto na Constituição, a descriminalização, ainda que parcial das drogas, poderá contribuir ainda mais para o agravamento desse problema de saúde”, argumentou no plenário.

A lista, no entanto, não para por aí. O ministro votou contra a abertura de uma ação sobre denúncias de violência policial contra povos indígenas guarani e kaiowá em Mato Grosso do Sul. O processo é movido pela Articulação dos Povos Indígenas do Brasil, que declarou apoio a Lula na eleição.

Zanin ainda negou usar o chamado princípio da insignificância para absolver dois homens condenados pelo furto de um macaco de carro, dois galões de combustível e uma garrafa com óleo diesel, avaliados em R$ 100. O princípio da insignificância é consolidado na jurisprudência do STF. A essência é que há casos tão irrelevantes, financeira e socialmente, que não vale a pena movimentar o aparelho policial e judicial do Estado em busca de uma punição. A tese vem sendo aplicada a partir de uma dupla perspectiva: criminal e social.

Ao final de seu primeiro mês no STF, Cristiano Zanin acumula no gabinete um acervo de mais de 800 processos. A maioria das ações é herança do antecessor, Ricardo Lewandowski, aposentado compulsoriamente em abril. Predominam casos de Direito Administrativo e Penal.

Quando sua indicação era apenas uma especulação, poucas vozes da esquerda se insurgiram contra a escolha. Àquela altura, a posição do então advogado sobre temas relevantes no debate público e caros aos setores progressistas era desconhecida. O criminalista era o advogado que tirou Lula da cadeia na Operação Lava Jato e antagonizou com o então juiz Sergio Moro – e, para muitos, mereceu a cadeira no Supremo, já que a escolha é uma prerrogativa do presidente.

Para Jeferson Mariano Silva, professor da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e pesquisador do grupo Judiciário e Democracia (Jude), a indicação está associada justamente com a atuação do criminalista na Lava Jato. É de autoria de Zanin o recurso ao STF que provocou uma reviravolta na operação, com a declaração de parcialidade de Moro e a reabilitação política de Lula. O professor avalia que o “combate ao populismo penal” foi o eixo em torno do qual a nomeação do advogado foi construída.

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“Zanin não chegou ao Supremo por ser um homem de esquerda nem mesmo por ser o advogado do presidente. Ele chegou lá por ter sido o jurista que mais se destacou na demonstração das fragilidades da Lava Jato”, defende Mariano (leia abaixo a entrevista completa). “Foi decisiva a reputação que ele construiu perante os senadores. Boa parte da atual insatisfação de setores de esquerda com os votos de Zanin advém da inadequada desconsideração desse segundo fator.”

A atuação de Zanin no cargo deu combustível ao movimento em defesa da indicação de uma mulher negra ao Supremo Tribunal Federal, o que seria inédito na história da Corte. O STF teve apenas três ministras, todas brancas – Ellen Gracie, Cármen Lúcia e Rosa Weber.

Lula terá uma nova indicação para fazer com a saída de Rosa Weber, atual presidente do STF, que completa 75 anos neste mês de setembro. A ministra tem um perfil sensível a pautas de direitos humanos. Um manifesto lançado em conjunto por associações do movimento negro, de mulheres e de juristas cobra representatividade e ataca diretamente Zanin.

“Não podemos correr o risco de ver outro Zanin ocupando a Corte, com posicionamentos que vão na contramão das necessidades e dos direitos da maioria da população. O Brasil não aceita mais um ministro conservador”, diz um trecho do manifesto, que já tem mais de dez mil assinaturas.

Apesar da pressão, Lula tem evitado se comprometer com a indicação. Aliados do presidente avaliam que a fidelidade é o primeiro critério para a escolha. Reconhecem, no entanto, que se não indicar uma mulher precisará enfrentar o ônus de ter reduzido a já desequilibrada representação de gênero no tribunal.

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Estadão Conteúdo

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