Partido de André Ventura, aliado de Bolsonaro, quadruplica bancada; centro-direita deve comandar Portugal
Partido Chega soma 48 cadeiras, 36 a mais do que as atuais 12.
Em Portugal, antes mesmo dos resultados finais, o partido Chega já celebrava os números — afinal, o partido hoje conta com 12 deputados e, segundo os resultados preliminares, alcançará 48. Neste domingo (10), a sigla confirmou ter recebido mais de um milhão de votos. A contagem já foi concluída no território português, mas continua para os votos do exterior.
— Sinto-me realizado, segundo tudo indica haverá uma maioria forte à direita para governar — disse o líder do Chega, André Ventura, que foi reeleito em seu distrito em Lisboa. — Hoje é o dia em que se assinala o fim do bipartidarismo em Portugal.
Em declarações à imprensa, ele indicou que está aberto a um eventual convite para integrar o Gabinete liderado pelos social-democratas.
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— Os portugueses manifestaram-se e disseram claramente que querem um governo entre o Chega e a AD, cabe agora aos líderes políticos interpretar o que foi expresso. Não há um país que eu conheça em que um dos blocos da maioria tem mais de 20% e não há governo — declarou Ventura.
— Os portugueses deram-nos uma maioria. Seremos totalmente irresponsáveis se não concretizarmos com um governo. Temos de dar um governo a Portugal. Estamos disponíveis para construir um governo em Portugal.
Até agora, não há qualquer indício de que o Chega, pautado em um forte discurso anti-imigração e com falas xenofóbicas recorrentes, possa integrar o governo, como deseja Ventura. Na reta final de campanha, Luís Montenegro, presidente do Partido Social-Democrata, disse que “não fala” com Ventura e chegou a pedir aos eleitores do Chega que votassem em sua sigla — desde o ano passado, Montenegro vem usando a expressão “não é não” para negar qualquer acordo com a extrema-direita.
— Quero dizer a essas pessoas que compreendo-as e sei que elas não são extremistas, não são racistas, não são xenófobas — disse Montenegro, na terça-feira passada. — Eu compreendo que muita dessa força vem da frustração, da indignação, às vezes mesmo da revolta que muitas portuguesas e muitos portugueses sentem porque os poderes públicos, em particular o Governo, não está a dar a resposta que essas pessoas exigem.
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Na noite de domingo, durante discurso a apoiadores, Montenegro disse considerar que a vitória era irreversível, com a AD somando ao menos 79 cadeiras na Assembleia e se firmando como a maior bancada, incluindo as três cadeiras da coligação PSD-CDS na Ilha da Madeira. Ao ser questionado sobre uma eventual aliança com o Chega, foi sucinto.
— Eu assumi dois compromissos na campanha eleitoral e naturalmente cumprirei a minha palavra — disse Montenegro. — Nunca faria comigo, com o meu partido e com Portugal tamanha maldade que seria descumprir compromissos que fiz de forma bem clara.
Segundo analistas, é grande a possibilidade de Montenegro liderar um governo de minoria, algo possível em Portugal, mas que traz consigo o fantasma da instabilidade.
Desde 1976, apenas três Gabinetes desse tipo conseguiram chegar ao fim de seus mandatos: a “geringonça” de António Costa, o primeiro governo de António Guterres, no final dos anos 1990, e um governo de Carlos César nos Açores, nesta mesma época.
— É tudo aquilo de que Portugal não precisava num contexto de tanta incerteza internacional. Portanto, creio que a opção de avançar para eleições só pode ser classificada como muito temerária, muito arriscada e, infelizmente, as circunstâncias atuais sugerem que Portugal sairá fragilizado — disse ao Jornal de Notícias o chanceler português, João Gomes Cravinho, ao comentar a possibilidade de um governo minoritário da AD e a hipótese de novas eleições.
Dentro do Partido Socialista (PS), a possibilidade de uma derrota era levada a sério, e ela foi confirmada pelas projeções e pelos resultados preliminares. Das 120 cadeiras atuais, a sigla ficará com 77, sendo relegada à oposição pela primeira vez desde 2015. A Assembleia é composta por 230 deputados.
— Vamos liderar a oposição. Seremos a oposição. Renovaremos o partido e procuraremos resgatar os portugueses descontentes com o PS. Esta é a nossa tarefa daqui para a frente — disse o secretário-geral do PS, Pedro Nuno Santos, em declarações a apoiadores.
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Alguns resultados permitiram traçar uma imagem do tamanho da derrota: no distrito de Beja, considerado um bastião da esquerda, o candidato do PS sficou em primeiro, mas seguido por um nome da AD e por um do Chega — no distrito são eleitos os três candidatos mais votados. Nas últimas duas eleições, o PS ficou com duas cadeiras e a Coligação Democrática Unitária, de esquerda, com uma cadeira.
Um outro ponto trazido pelas pesquisas de boca de urna foi a queda na abstenção: o voto não é obrigatório em Portugal, e segundo as projeções entre 32% e 38% dos eleitores aptos não foi às seções depositar seus votos. Em 2022, a abstenção foi de 48,54%. Caso se confirme, seria a mais baixa abstenção em 15 anos.
Depois da confirmação dos resultados, está marcada para a quarta-feira uma conferência de líderes dos partidos, e uma semana depois o presidente Marcelo Rebelo de Sousa ouve essas lideranças sobre os nomes cotados para liderar um governo, e sinaliza quem deve ser o indicado para o posto de primeiro-ministro.
A confirmação no cargo será feita na primeira sessão da nova legislatura, que deve ocorrer no início de abril — depois da posse, o novo Gabinete deve apresentar um programa de governo, que será submetido ao plenário, e pode inclusive ser rejeitado pelos parlamentares.
*Com informações de O Globo
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