Serra Leoa: o país onde 83% das mulheres sofrem mutilação genital
De acordo com o Unicef, cerca de 83% das mulheres entre 15 e 49 anos foram submetidas ao procedimento.

Foto: grok
A mutilação genital feminina (MGF) em Serra Leoa é uma prática profundamente enraizada na cultura, mas que gera debates globais sobre direitos humanos, saúde e igualdade de gênero. Com uma das maiores taxas de prevalência do mundo, o país enfrenta um dilema: preservar tradições ou proteger a vida e a dignidade de mulheres e meninas. Neste artigo, exploramos o cenário atual da MGF em Serra Leoa, os casos mais recentes, os impactos na sociedade e os esforços para sua erradicação.
O que é a Mutilação Genital Feminina?
A MGF, também conhecida como circuncisão feminina, envolve a remoção parcial ou total dos órgãos genitais externos por motivos não médicos. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), a prática é classificada em quatro tipos, variando em gravidade, e é reconhecida como uma violação dos direitos humanos. Em Serra Leoa, ela ocorre principalmente no contexto das sociedades secretas Bondo, um rito de passagem tradicional para a vida adulta.
Prevalência da MGF em Serra Leoa
Serra Leoa registra uma das maiores taxas de MGF globalmente. De acordo com o Unicef, cerca de 83% das mulheres entre 15 e 49 anos foram submetidas ao procedimento, conforme dados de 2019. Embora haja uma leve redução em relação aos 90% de 2013, a prática permanece amplamente aceita. Entre adolescentes de 15 a 19 anos, o índice caiu para 61%, sugerindo uma mudança geracional, mas ainda preocupante.
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A MGF é conduzida pelas “soweis”, líderes das sociedades Bondo, que cobram cerca de 50 dólares por menina, segundo o Delas.pt. Além de um ritual cultural, a prática é vista como um pré-requisito para o casamento e a aceitação social, o que dificulta sua rejeição.
Casos Recentes que Chocaram o Mundo
Nos últimos anos, mortes associadas à MGF reacenderam o debate sobre a necessidade de proibição. Em fevereiro de 2024, três jovens – Adamsay Sesay (12 anos), Salamatu Jalloh (13 anos) e Kadiatu Bangura (17 anos) – morreram durante cerimônias Bondo, conforme relatado pela Agência Brasil. As complicações, como hemorragias e infecções, são comuns, mas frequentemente encobertas pela falta de registros em áreas rurais.
Outro caso marcante foi o de Maseray Sei, de 21 anos, que faleceu em dezembro de 2021 após um procedimento em Nyandeni, distrito de Bonthe. A morte, reportada pelo Verdade Alagoas, levou à prisão de soweis e pedidos por uma autópsia, evidenciando os riscos à saúde que a prática representa.
Impactos na Saúde e na Sociedade
A MGF traz consequências graves, tanto físicas quanto psicológicas. Entre os riscos estão:
- Hemorragias fatais: principal causa de morte em muitos casos.
- Infecções: Devido ao uso de instrumentos não esterilizados.
- Complicações no parto: aumentando a mortalidade materna e infantil.
- Traumas psicológicos: incluindo ansiedade e depressão.
Socialmente, meninas que recusam o ritual enfrentam ostracismo, exclusão de casamentos e até violência. Isso perpetua um ciclo de desigualdade de gênero, limitando o acesso à educação e à autonomia.
A Situação Legal em Serra Leoa
Diferentemente de países como Nigéria e Gâmbia, que baniram a MGF em 2015, Serra Leoa ainda não possui uma lei nacional que proíba a prática. Em 2022, especialistas da ONU cobraram alterações na Lei dos Direitos da Criança para proteger meninas menores de 18 anos. O presidente Julius Maada Bio demonstrou apoio a iniciativas de maternidade segura, mas a resistência cultural e política impede avanços significativos.
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As sociedades Bondo, com forte influência nas comunidades, opõem-se à criminalização, argumentando que a MGF é parte de sua identidade. Enquanto isso, ativistas como Rugiatu Turay, ex-vice-ministra, lutam por mudanças, enfrentando ameaças e desafios.
Esforços para Erradicar a MGF
Apesar das barreiras, há sinais de esperança. Iniciativas comunitárias, como as de Kambia, relatadas pela Anistia Internacional em 2014, conseguiram acordos locais para suspender a MGF em meninas menores de 18 anos. ONGs internacionais, como o Unicef e o Forum Against Harmful Practices (FAHP), promovem educação e diálogo para mudar percepções culturais.
Casos como o de Tyson Conteh, que perdeu a namorada Fatmata em 2016 devido a uma hemorragia pós-MGF (reportado pela BBC News Brasil), também inspiram campanhas de conscientização. Esses esforços mostram que a combinação de pressão internacional e mobilização local pode gerar impacto.
Por que a Mudança é Urgente?
A continuidade da MGF em Serra Leoa reflete um conflito entre tradição e direitos humanos. Enquanto as sociedades Bondo defendem sua relevância cultural, os dados mostram que a prática ameaça a vida de milhares de meninas anualmente. A ausência de registros completos dificulta estimar o número real de mortes, mas os casos conhecidos são um alerta.
A redução entre as gerações mais jovens sugere que a conscientização está crescendo. No entanto, sem uma lei clara e um investimento em educação, o progresso será lento. A comunidade internacional tem um papel crucial em apoiar Serra Leoa nessa transição, respeitando sua cultura enquanto protege suas cidadãs.
A mutilação genital feminina em Serra Leoa é um desafio humanitário que exige ação urgente. Casos de morte, como os de Adamsay, Salamatu e Maseray, são lembretes trágicos dos riscos envolvidos. Embora a tradição tenha raízes profundas, os esforços de ativistas e organizações mostram que a mudança é possível. Proibir a prática e educar as comunidades são passos essenciais para garantir um futuro mais seguro e igualitário para as mulheres serra-leonesas.
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