Refugiada venezuelana transforma dor em empreendedorismo e constrói novo futuro com a culinária em Manaus
Empreendedorismo transformou a vida de Ana Morales que passou a ganhar a vida em Manaus com a culinária venezuelana.
- Ana Morales / Arquivo Pessoal
Notícias do Amazonas – Cinco anos e meio após cruzar a fronteira do Brasil com um cesto de doces nas mãos e os sonhos na bagagem, a venezuelana Ana Morales, 48, transformou a própria história em um exemplo de resiliência, reinvenção e empreendedorismo feminino em Manaus. Natural de Barrancas de Orinoco, no estado de Monagas, Ana deixou para trás uma vida profissional ativa como paramédica e cozinheira auxiliar no restaurante da família.
“Eu era uma mulher muito ativa. Trabalhava como paramédica, às vezes dirigia ambulância, e nunca deixei de lado a paixão pela cozinha. Sempre levava doces para o trabalho, fazia pra vender, ajudava minha mãe no restaurante. Mas a crise destruiu tudo. A gente precisou largar tudo e tentar sobreviver com o que fosse possível”, lembra.
- Ana Morales / Arquivo pessoal
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Vítima do caos na Venezuela
A instabilidade política e econômica da Venezuela, comandada pelo ditador Nicolás Maduro, foi apenas parte da motivação para a fuga. Ana revela que sua cidade foi tomada por grupos armados, conhecidos como “sindicatos”, que ameaçavam os jovens da comunidade.
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“Começaram a tomar conta do bairro. Estavam destruindo a juventude. Meu filho mais novo tinha acabado de se formar em gastronomia, com 18 anos, e eu não podia permitir que ele fosse a próxima vítima. Por isso, decidi buscar outro horizonte pra ele. A gente saiu com fé e um cesto de doces”, contou
O plano inicial era vender na fronteira e juntar dinheiro. Mas ainda no primeiro dia, a realidade se impôs: “Não conseguimos nada. E naquele mesmo dia, tomamos a decisão radical de atravessar para o Brasil. Fizemos a documentação e viemos em busca de novas oportunidades.”
Dormir na rua para recomeçar
Antes de chegar a Manaus, Ana passou cinco dias dormindo na rua, com a família, em um posto de gasolina em Roraima.
“Foram quatro noites dormindo no chão. Nunca pensei em passar por isso. Um vizinho da minha cidade me reconheceu lá e ficou chocado: ‘Senhora Ana?’. E eu disse: ‘Meu filho, saímos de casa, do nosso conforto. Agora é se virar’. A gente precisa fazer o que for necessário pra alcançar o objetivo. E o objetivo era seguir em frente”, contou
Com apenas uma passagem de ônibus, a família conseguiu vir para Manaus. Aqui, Ana enfrentou problemas de saúde e começou a buscar formas de se sustentar sozinha.
“Eu estava doente, mas sabia que não podia depender dos outros. Fiz um doce, um alfajor, e saí pra vender. As pessoas gostaram. Uma amiga já tinha dito: ‘Faz, Ana, tu cozinha bem’. E aí eu fui em frente. Pudim, bolos, brigadeiros… era o que eu sabia fazer. E assim começou”, disse.
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A receita do recomeço
Com o tempo, Ana passou também a vender salgados. A adaptação ao paladar brasileiro foi um desafio, mas também uma oportunidade criativa.
“Eu chorava, porque não gostava de vender salgado no começo. Um vizinho me dava pra revender, e eu chorava pedindo perdão a Deus. Mas depois, fui criando minhas próprias receitas. Testava, testava… até chegar numa que funcionasse”, relatou.
Hoje, o carro-chefe do seu negócio é justamente um salgado brasileiro com influência venezuelana.
“É uma fusão de sabores. Uma mistura do Brasil com a Venezuela, com um toque de outras culturas que aprendi no caminho. Eu digo que é o Brasil temperado com a alma da Venezuela.”
- Foto: Eduardo Párica
Hermanitos e Mujeres Fuertes
A trajetória de Ana também foi fortalecida pela participação em projetos de integração socioeconômica de migrantes e refugiados. Ela é uma das beneficiárias das ações do Hermanitos, organização que atua no Amazonas e em Roraima promovendo empregabilidade, capacitação profissional e empreendedorismo para pessoas refugiadas e migrantes.
De acordo com o diretor-presidente do Hermanitos, Tulio Duarte, em 2024, mais de sete mil pessoas foram impactadas por iniciativas da entidade nesses dois estados, com destaque para cursos, apoio psicológico, atendimento em saúde e ações de proteção. Só no último ano, cerca de 2 mil currículos foram elaborados, 1.105 pessoas foram encaminhadas para vagas de emprego e mais de 500 foram empregadas.
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“Quando iniciamos em meados de 2018, indo aos abrigos e ouvindo histórias, identificamos a importância do trabalho para aquelas pessoas que buscavam recomeçar suas vidas, porque a invisibilização e o preconceito social ainda são questões muito presentes em nossa sociedade. Com muito planejamento e apoio de muitas mãos, conseguimos desenvolver vários projetos e ações que impactaram e seguem transformando vidas. Hoje, além da população venezuelana, o Hermanitos está de portas abertas para atender pessoas de outras nacionalidades como haitianos, colombianos, cubanos, sírios, libaneses, árabes e outras. Isso só é possível através do respeito que todo ser humano merece e com uma rede de apoio formada por colaboradores engajados, voluntários, apoios institucionais e parceiros estratégicos”, afirma Tulio Duarte.
Desde 2018, o Hermanitos já impactou mais de 35 mil pessoas, com mais de 1.400 inseridas no mercado de trabalho, cinco mil capacitadas e 800 empreendedores apoiados. A instituição atua em parceria com organizações como ACNUR, Ministério Público do Trabalho, Tribunal Regional do Trabalho da 11ª Região, Operação Acolhida e outros.
- Foto: Projeto Mujeres Fuertes / Hermanitos
Entre os projetos de destaque está o “Mujeres Fuertes”, que capacita mulheres chefes de família e mães solo para alcançarem independência financeira por meio do empreendedorismo. Em 2024, a iniciativa foi reconhecida nacionalmente com o Prêmio CNMP (Conselho Nacional do Ministério Público), na categoria Transversalidade dos Direitos Fundamentais, por seu impacto na promoção da equidade de gênero e dos direitos humanos das mulheres migrantes e refugiadas. Desde quando foi lançado, mais de 550 mulheres já foram beneficiadas com o projeto.
“No Mujeres Fuertes, eu aprendi a valorizar minha força como mulher empreendedora. São outras mulheres como eu, que passaram por dores parecidas, e juntas nos fortalecemos. É uma rede de apoio muito bonita.”
- Foto: Eduardo Párica
Feridas que viram força
A trajetória de Ana também foi marcada por um episódio de violência doméstica. Ela sobreviveu a uma tentativa de feminicídio e, desde então, usa a dor como combustível.
“Passei por algo que nenhuma mulher deveria passar. Foi uma tentativa de feminicídio. Mas minha neta, que nasceu depois disso, e meus filhos, me deram força pra continuar. Eles são meu motor.”
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Mesmo diante das adversidades, Ana mantém firme o sonho de expandir sua marca, hoje chamada de Fusão de Sabores.
“Quero estruturar meu negócio dentro do Mercado da Origem da Amazônia. Quero que o mundo conheça essa mistura de culturas que é a nossa cozinha. Já cruzamos fronteiras, mesmo sem sair de Manaus.”
- Foto: Eduardo Párica
“Viemos somar, não tirar”
Ao refletir sobre o que representa ser uma refugiada no Brasil, Ana deixa claro que não veio tirar o espaço de ninguém:
“A gente não veio tirar o lugar de ninguém. Viemos somar, assumir junto. Estou eternamente grata ao Brasil. E estou comprometida a devolver tudo o que recebi aqui. Os bons são mais. Temos dignidade, temos honra.”
E para outros imigrantes e refugiados que hoje enfrentam dificuldades no país, ela compartilha um conselho:
“Se amem. Acreditem em vocês. Deus colocou um potencial nas nossas mãos. Não desistam dos seus sonhos. Deus sempre na frente.”
Com receitas feitas à mão e histórias carregadas no coração, Ana Morales segue escrevendo um novo capítulo em Manaus — onde cada doce e salgado conta um pedaço de sua jornada de reconstrução.
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