Garimpo ilegal na Amazônia expõe trabalhadores a doenças, violência e desaparecimentos
Estudo revela violações de direitos e condições subumanas enfrentadas por pessoas cooptadas para a mineração ilegal.

Foto: Reprodução
Notícias de Meio Ambiente – Um levantamento inédito da Rede Eclesial Pan-Amazônica (Repam-Brasil) e do Instituto Conviva traz à tona os impactos devastadores do garimpo ilegal sobre trabalhadores cooptados na Amazônia. A pesquisa, realizada entre janeiro de 2022 e dezembro de 2024, ouviu 389 pessoas em Manaus (AM), Altamira (PA), Porto Velho (RO) e Boa Vista (RR) — cidades que concentram grande parte da população amazônica e que funcionam como polos de recrutamento para a atividade ilegal.
Entre os principais problemas identificados estão doenças causadas pela exposição ao mercúrio, casos de assédio e estupro, tentativas de homicídio e desaparecimentos forçados. As condições precárias a que esses trabalhadores são submetidos revelam um cenário de abandono e violações sistemáticas de direitos.
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O estudo mostra que a expectativa de vida entre os garimpeiros é de apenas cinco anos, muito abaixo da média nacional de 76,4 anos registrada pelo IBGE em 2023. As principais causas de morte no garimpo incluem afogamentos (20%), soterramentos (19%) e ataques de animais peçonhentos (incluindo cobras, insetos e aracnídeos).
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Realidade de violência e desamparo
Os pesquisadores alertam que, apesar de toda forma de mineração representar riscos para os povos amazônicos, o garimpo ilegal se destaca negativamente por estar associado ao crime organizado, incluindo tráfico de drogas, armas e pessoas.
“As pessoas não escolhem o garimpo; elas são empurradas para ele pela falta de oportunidades”, afirma o estudo. A migração forçada para áreas de mineração ilegal é impulsionada pela desesperança e falta de perspectivas no campo e nas periferias urbanas.
Relatos colhidos na pesquisa revelam a brutalidade cotidiana do garimpo. Adriano, nome fictício de um homem que começou a trabalhar no garimpo aos 14 anos, resume a experiência com um tom de resignação: “Se amanhecer vivo, já está no lucro”. A rotina de instabilidade, riscos extremos e falta de apoio é recorrente entre os trabalhadores entrevistados.
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Já Valéria, de 32 anos, que atuou como mergulhadora em uma área de garimpo na Terra Indígena Yanomami, conta ter sobrevivido a tentativas de homicídio enquanto descobria veios de ouro. Segundo ela, garimpeiros cortavam mangueiras de oxigênio durante os mergulhos para evitar dividir os lucros. “Fizeram isso comigo três vezes. Escapei nadando por quilômetros para fugir”, relatou.
Mulheres e crianças na mira da exploração
O estudo também destaca a violência específica enfrentada por mulheres e meninas nos garimpos ilegais. Casos de tráfico humano, abusos sexuais e servidão por dívidas são comuns, especialmente com adolescentes entre 12 e 14 anos. Muitas são levadas para áreas isoladas com a promessa de trabalho e acabam presas a ciclos de violência e exploração.
“É uma realidade onde as vítimas, muitas vezes, não se reconhecem como tal, tamanha a naturalização da violência”, explica Márcia Oliveira, pesquisadora da Universidade Federal do Amazonas e assessora da Repam.
Desaparecimentos que nunca se encerram
Casos como o de Rosa, de 54 anos, revelam o drama das famílias que buscam por desaparecidos no garimpo. Há 18 anos, ela procura o filho, que sumiu em uma área de mineração ilegal. Sem corpo, sem respostas e sem acesso à Justiça, ela define o garimpo como “terra de ninguém”.
O estudo pede ações urgentes do poder público e reforça a necessidade de políticas que enfrentem o problema do garimpo ilegal não apenas como uma questão ambiental, mas também como uma grave crise humanitária e social.

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