Artigo: Por que a COP-30 deveria ser em Manaus, e não em Belém?
A capital amazonense reúne uma série de atributos que a tornam a mais preparada da Amazônia brasileira para receber o evento.
- Arte: Luiza Araújo/Portal AM POST
Notícias de Manaus – A escolha de Belém como sede da COP-30, conferência global sobre mudanças climáticas marcada para 2025, foi celebrada como um gesto simbólico: trazer o centro do debate climático para dentro da Amazônia. Mas se a ideia era colocar o mundo diante da floresta, da ciência, do desafio logístico e da esperança amazônica, a cidade escolhida não é a mais adequada. Essa cidade, com todas as letras, deveria ser Manaus.
A capital amazonense reúne uma série de atributos que a tornam a melhor e mais preparada representante da Amazônia brasileira para receber um evento de tamanha envergadura. Comecemos pelo mais objetivo: a experiência concreta e bem-sucedida com grandes eventos internacionais. Em 2014, Manaus sediou quatro jogos da Copa do Mundo da FIFA, recebendo mais de 260 mil passageiros apenas entre os dias 6 e 25 de junho, segundo dados da Infraero e da própria FIFA. Esse número é mais de cinco vezes maior que a estimativa de público para a COP-30, que gira em torno de 45 a 50 mil pessoas, de acordo com o secretariado da ONU e o governo brasileiro.
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E mais: Manaus não sofreu colapso hoteleiro, não precisou adaptar escolas, usar navios de cruzeiro como alojamento nem inflacionou o mercado local de hospedagem. A estrutura existente foi suficiente para acomodar todos os visitantes com dignidade e segurança e isso sem nenhuma manchete negativa internacional.
Já o mesmo não se pode dizer de Belém. Relatórios recentes de veículos como Reuters, The Guardian e Climate Change News denunciaram a alta dos preços, a escassez de quartos e a falta de planejamento para receber os milhares de delegados da COP. A ONU, inclusive, chegou a realizar reuniões emergenciais com o governo brasileiro cobrando soluções concretas e urgentes para evitar um vexame logístico global.
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Além da capacidade já testada, Manaus abriga o maior polo industrial da região Norte, sustentado por um modelo único no mundo: a Zona Franca de Manaus, que gera desenvolvimento econômico com baixíssimo desmatamento. Esse equilíbrio entre indústria e floresta em pé é exatamente o que o mundo quer entender e discutir na COP.
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Outro ponto essencial: ciência e governança. Manaus concentra instituições como o INPA, a Fiocruz Amazônia, a Fundação Amazônia Sustentável, além de universidades públicas e centros de pesquisa de excelência voltados à biodiversidade e à bioeconomia. Também sedia a Organização do Tratado de Cooperação Amazônica (OTCA), organismo internacional que articula as oito nações amazônicas. Ou seja, Manaus é a capital diplomática da Amazônia, ainda que isso nem sempre receba o devido destaque político.
Geograficamente, Manaus está no coração da floresta, cercada por mata primária e banhada pelos rios Negro e Solimões. É o ponto de maior visibilidade para quem deseja mostrar a Amazônia como ela é: viva, vulnerável, diversa, mas com potencial de liderar uma revolução verde planetária.
Belém tem história, cultura rica e valor simbólico. Mas no quesito estrutura, logística e capacidade de impacto internacional, Manaus entrega mais, com mais clareza, mais segurança e mais potência. Levar a COP para Manaus não seria apenas uma escolha técnica acertada, seria um gesto coerente com o discurso global de valorização da floresta, da ciência e das soluções sustentáveis reais, aplicáveis, que já existem na Amazônia urbana.
A floresta não é apenas paisagem: é projeto. E esse projeto tem nome, endereço e identidade. Se o mundo quiser enxergar a Amazônia com a profundidade que ela exige, deverá passar por Manaus.
A escolha de Belém não foi feita com base em critérios técnicos, estruturais ou ambientais foi, em grande medida, uma decisão política. E o problema disso não está apenas em quem ganha ou perde espaço no noticiário ou nos bastidores. O verdadeiro prejuízo é do próprio discurso climático. Ao optar por uma cidade que representa mais o passado colonial da Amazônia do que seu presente e futuro, a conferência arrisca transformar um palco de inovação e esperança em uma vitrine de improviso. A Amazônia urbana que concilia floresta em pé, bioeconomia, ciência e indústria sustentável não está em Belém, está em Manaus. Ignorar isso é desperdiçar a chance de mostrar ao mundo um modelo viável de desenvolvimento amazônico que já existe, opera e precisa ser fortalecido. Não se trata de disputa entre cidades, mas entre visões: uma que mira o retrovisor e outra que aponta para o futuro.
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