Cartel da gasolina se renova há anos em Manaus e consumidor segue refém de preços abusivos mesmo com várias denúncias
Cinco anos depois da CPI dos Combustíveis, a gasolina continua com preços praticamente iguais em todos os postos de Manaus.
- Foto: Reprodução Pixabay
Notícias de Manaus – Manaus convive há décadas com suspeitas de cartel nos preços dos combustíveis. O tema já foi alvo de uma CPI na Assembleia Legislativa (2019/2020) que terminou em pizza, sem responsabilizações efetivas, mas o problema persiste. Cinco anos depois, a gasolina continua com preços praticamente iguais em todos os postos da cidade, beirando os R$ 7 por litro na capital, e agora o Grupo Atem volta a ser o principal alvo das acusações.
Na última semana, o vereador Rodrigo Guedes (Progressistas) levou à Brasília uma nova denúncia contra a empresa, protocolada no Conselho Administrativo de Defesa Econômica (CADE) e no Ministério de Minas e Energia (MME). O parlamentar afirma que a Rede Atem, maior distribuidora de combustíveis do Amazonas e controladora da Refinaria Isaac Sabbá (Ream), pratica cartel e impõe preços abusivos aos consumidores manauaras.
“Todos os postos cobram o mesmo preço”
Em entrevista ao Portal AM POST, Guedes detalhou as evidências que, segundo ele, sustentam a denúncia.
“Há duas formas de comprovar: a primeira é analítica, com base em números, que mostram que 100% dos postos praticam o mesmo preço, com diferença de apenas três centavos no máximo. A segunda é por meio de denúncias de donos de postos, que relatam a pressão das distribuidoras para que mantenham a mesma tabela”, afirmou.
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O vereador lembra que já fez mais de 100 denúncias formais desde 2018, mas que agora decidiu provocar instâncias superiores para forçar uma investigação efetiva. “Nenhum ataque, nenhuma chantagem vai me intimidar. Nem que seja pregando no deserto, vou continuar denunciando”, disse.

Rodrigo Guedes (Progressistas) levou à Brasília uma nova denúncia contra a empresa (Divulgação)
CPI que terminou em pizza
O suposto cartel já foi alvo de investigação parlamentar. Em 2019, a Assembleia Legislativa instaurou a CPI dos Combustíveis, que funcionou por 120 dias. O relatório final, apresentado em agosto daquele ano, não conseguiu apontar responsáveis nem confirmar oficialmente a existência de cartel.
Leia mais: CPI dos Combustíveis apresenta relatório final e aponta indícios de cartel no AM
A CPI teve como presidente a deputada Joana Darc, vice-presidência o então deputado estadual Fausto Júnior, e relatoria a deputada Alessandra Campêlo. Fizeram parte como membros, os deputados Álvaro Campelo, Roberto Cidade, Delegado Péricles, Dermilson Chagas e Abdala Fraxe.
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Membros da CPI dos Combustíveis em 2019 (Foto: Divulgação)
O resultado foi frustrante para a população, que viu a comissão acabar como tantas outras: em pizza. Para os donos de postos e distribuidoras, a CPI não trouxe constrangimentos ou consequências práticas, já que as práticas suspeitas continuaram.
Confira o relatório final da CPI dos Combustíveis na íntegra:
Relatório final da CPI dos Combustíveis da Aleam
Grupo Atem no centro da polêmica
Em maio de 2024, o Grupo Atem foi notificado pela Justiça Federal em uma ação popular que apontava indícios de cartel, irregularidades em licitações, violações ambientais e relações controversas com agentes políticos. O caso ganhou força pela forma como a empresa assumiu o controle da Refinaria Isaac Sabbá (Ream), comprada por cerca de 70% do valor de mercado, o que resultou na saída da Petrobras do setor de refino no Amazonas.
Para críticos, a operação aumentou ainda mais a concentração de poder da Atem no mercado regional de combustíveis, ampliando a possibilidade de práticas anticoncorrenciais.
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Além disso, nesta semana, veio à tona a informação de que o petróleo extraído da Bacia de Urucu, no município de Coari (AM), não é mais processado no próprio Amazonas. Desde o início de 2025, toda a produção tem sido enviada para refinarias no Sudeste, enquanto a Refinaria da Amazônia (Ream), localizada em Manaus, não teria mais refinado um único litro do petróleo produzido no estado este ano.
Leia mais: Amazonas perde autonomia energética após ruptura no refino de Urucu
Para especialistas, a mudança marca uma ruptura histórica na cadeia energética regional, simbolizando a perda da autonomia que o estado mantinha ao explorar e refinar localmente parte de sua principal riqueza natural.
Em nota, a Refinaria da Amazônia (Ream) admitiu ao Portal AM POST que não está utilizando o petróleo extraído da Bacia de Urucu como matéria-prima para suas operações em Manaus. O grupo, por outro lado, diz que tem total interesse em adquirir o petróleo produzido em Urucu para fortalecer o abastecimento regional, mas, mesmo com a infraestrutura instalada e capacidade para processar o petróleo da região, a Ream afirma que o custo do insumo oferecido inviabiliza sua utilização, preferindo alternativas de fora do estado.
“A Ream tem total interesse em adquirir o petróleo produzido em Urucu para fortalecer o abastecimento regional. No entanto, o insumo não é ofertado a preços que viabilizem essa alternativa. Em vez de atender a refinaria local, o produto é escoado para fora da região norte, ainda que isso represente prejuízo logístico e econômico.”, diz trecho da nota.
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O AM POST procurou o grupo Atem para comentar novamente sobre o assunto e aguarda retorno.
AGU e governo federal também levantam suspeitas
Em julho de 2025, a Advocacia-Geral da União (AGU) encaminhou ao CADE pedido de investigação sobre práticas anticoncorrenciais nos preços de gasolina, diesel e GLP em todo o Brasil, com atenção especial para o Norte. O documento cita problemas ligados à Refinaria do Amazonas (Ream) e ao mercado de distribuição local.
De acordo com a AGU, há indícios de que distribuidoras e revendedores não estariam repassando as reduções de preços praticadas pelas refinarias aos consumidores, configurando prática de cartel.
Consumidor segue como maior prejudicado
Enquanto os processos se arrastam, o consumidor manauara continua pagando caro. Em postos da cidade, o preço da gasolina comum segue entre R$ 6,99 e R$ 7,09, praticamente sem variação entre estabelecimentos — o que reforça a suspeita de alinhamento de preços.
Rodrigo Guedes diz que, desta vez, a estratégia será envolver a população e pressionar outros parlamentares para que não deixem o caso morrer.
“Não posso ser cúmplice desse esquema. O cartel existe e é o povo que paga a conta. Se o Amazonas não enfrenta, vamos buscar em Brasília quem tenha coragem de enfrentar”, concluiu.
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