Parteiras do Amazonas enfrentam seca extrema e caminham quilômetros para salvar gestantes
Associação de parteiras tradicionais pede reconhecimento de piso salarial e leva à COP30 o impacto da crise climática na saúde das mulheres

Parteiras do Amazonas enfrentam seca extrema e caminham quilômetros para salvar gestantes – Foto: imagem criada por inteligência artificial
Notícias do Amazonas – A seca histórica que atinge a Amazônia tem transformado o trabalho das parteiras tradicionais em uma verdadeira corrida de resistência pela vida. Em Tefé, a 525 km de Manaus, mulheres como Lucimar Pereira Vale, 62 anos, caminham quilômetros sob sol intenso e entre dunas formadas no leito seco dos rios para atender gestantes em situação de risco.
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Caminhos mais longos e riscos maiores
Entre 2023 e 2024, a estiagem prolongada, agravada pelo fenômeno El Niño e pelo aquecimento do Atlântico, reduziu drasticamente o nível dos rios da região. O trajeto que antes durava menos de uma hora de rabeta passou a levar até três horas, com trechos em que as embarcações precisam ser empurradas ou substituídas pela caminhada a pé.
Em alguns casos, mulheres prestes a dar à luz são transportadas em redes carregadas por familiares até encontrarem as parteiras. “Eu não meço distância. Eu encaro mesmo as dificuldades para ajudar essas mulheres”, afirma Lucimar.
Saberes ancestrais no enfrentamento à crise climática
As 1.144 parteiras ligadas à Associação das Parteiras Tradicionais do Amazonas (APTAM) atuam em 38 municípios do estado. Seu conhecimento, transmitido de geração em geração, combina ervas medicinais, rezas indígenas e práticas ribeirinhas que garantem o cuidado às mães e bebês em locais onde o sistema de saúde não alcança.
Maria do Perpétuo Socorro Silva Rodrigues, presidente da APTAM, relembra a origem de sua vocação: “Eu fiz o parto de três irmãs minhas, uma delas na canoa. Esse saber vem das nossas mães e avós. É o corpo da mulher que comanda, e nós esperamos o tempo dela”.
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Impactos da seca na saúde das comunidades
Além das dificuldades de deslocamento, as secas intensas trazem doenças como malária e diarreia, agravadas pelo consumo de água não filtrada retirada de olhos d’água escavados na areia. O calor extremo também provoca sofrimento em idosos e gestantes, ampliando os riscos durante a gravidez e o parto.
Luta por reconhecimento e valorização
Apesar de serem responsáveis por milhares de partos seguros, as parteiras tradicionais não são reconhecidas formalmente pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Sem vínculo empregatício, não têm direito ao piso salarial da enfermagem aprovado em 2022, que beneficia apenas profissionais registradas em unidades de saúde.
“Hoje, no Amazonas, apenas duas parteiras entram no sistema do piso salarial. Todas as outras trabalham sem remuneração”, explica Socorro.
Voz na COP30: justiça climática e saúde das mulheres
De acordo com o Portal InfoAmazonia, a APTAM pretende levar suas demandas para a 30ª Conferência da ONU sobre Mudanças Climáticas (COP30), em Belém, no próximo ano. Entre as reivindicações estão o fornecimento de kits de maternidade, apoio alimentar e a inclusão das parteiras tradicionais nas políticas públicas de saúde e adaptação climática.
“Nós estamos lutando pelo básico. Queremos reconhecimento e condições para continuar salvando vidas”, afirma Socorro.
Por: Mayara Leite – Redatora Seo On
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