Prefeituras do Amazonas temem “Super El Niño” e acionam governo federal por ajuda antes da seca de julho
Municípios ainda sofrem com cheia dos rios, mas relatórios meteorológicos indicam risco de estiagem histórica em 2026

Foto: Divulgação
Resumo
Enquanto a cheia dos rios ainda afeta 150 mil pessoas no Amazonas, as prefeituras do estado já buscam apoio do governo federal para enfrentar a próxima seca, que começa em julho. A preocupação é com o risco de um “Super El Niño”, cujas projeções indicam que a estiagem de 2026 pode atingir os níveis críticos de 2023 e 2024.
Notícias do Amazonas – O estado do Amazonas vive um paradoxo climático severo. Enquanto a subida dos rios ainda castiga mais de 150 mil pessoas em 16 municípios, as prefeituras do interior começaram uma corrida contra o tempo para se preparar para o próximo período de seca, previsto para iniciar em julho. O sinal de alerta foi ligado após relatórios internacionais indicarem a iminência de um “Super El Niño”, com potencial para repetir o rastro de isolamento e desabastecimento das estiagens históricas de 2023 e 2024.
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Logística eleitoral sob ameaça e alta de custos
A Associação Amazonense de Municípios (AAM) enviou um ofício ao Ministério do Desenvolvimento Regional (MDR) solicitando auxílio humanitário e logístico preventivo, mas ainda não obteve resposta. O grupo municipalista também acionou formalmente o Tribunal Superior Eleitoral (TSE). O motivo é o impacto direto que a seca extrema trará para as eleições deste ano.
Segundo o presidente da AAM, Anderson Sousa, a baixa dos rios encarece de forma dramática a locomoção na região. Com os rios secos, embarcações maiores não navegam, exigindo rotas mais longas ou o uso de transportes menores que consomem muito mais combustível.
“No interior, muitas vezes, é a prefeitura que precisa lidar com o transporte dos eleitores e, na seca, o custo fica muito maior. Um custo de combustível de embarcação para todo o período, que a gente paga R$ 20 mil, vai a R$ 50 mil por causa das secas extremas”, revelou o dirigente.
Entre 2023 e 2024, mais de 800 mil amazonenses foram afetados pela estiagem, que provocou desabastecimento de comida e deixou até a zona rural de Manaus sem acesso a água potável.
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Alerta da ciência e o fator oceanos
Os dados que sustentam o medo dos prefeitos vêm da Administração Oceânica e Atmosférica Nacional (NOAA), dos Estados Unidos, que aponta probabilidade de formação do El Niño acima de 60% entre maio e julho, escalando para 90% a partir de agosto de 2026. Somado a isso, o Serviço de Mudanças Climáticas Copernicus revelou que as águas dos oceanos podem registrar recordes de temperatura antes mesmo da consolidação do fenômeno.
O cientista Carlos Nobre, referência global em mudanças climáticas, ressalta a importância do planejamento preventivo baseado em probabilidades. Segundo o meteorologista, os modelos atuais dividem as chances em 20% para um evento forte, 20% para muito forte e 20% para caráter médio, cenário que ficará mais nítido entre junho e julho.
“A adaptação é um enorme desafio. Em 2023 e 2024, eram centenas de milhares de populações da Amazônia prejudicadas. Não tinha mais o rio, havia falta de água potável, dificuldade de obter alimento, prejuízos na economia. Então, é preciso começar a planejar adaptação”, alertou Carlos Nobre.
Plano com calcário para frear queimadas recordes
Além do desabastecimento, o fogo é outra grande dor de cabeça. Em 2024, o Amazonas bateu um recorde histórico ao registrar mais de 25 mil focos de calor devido à vegetação extremamente seca.
Para tentar conter o problema na base, a AAM apresentou um projeto técnico à Superintendência de Desenvolvimento da Amazônia (Sudam) e ao Ministério da Agricultura. A ideia é equipar as prefeituras com patrulhas mecanizadas — incluindo tratores, retroescavadeiras e trituradores de madeira — para incentivar os pequenos produtores rurais a limparem seus terrenos sem usar o fogo.
Tradicionalmente, os agricultores queimam a mata porque o carvão fertiliza a terra a curto prazo. A associação defende a substituição dessa prática pelo uso do calcário para a correção do solo, garantindo a produtividade da terra sem colocar a floresta em risco durante o “verão amazônico”. O plano aguarda a liberação de recursos do governo federal.
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