Especial: Por que o crime organizado ainda controla territórios no Brasil?
A presença do crime organizado controla territórios, impõe regras e leis paralelas, tornando o Estado um espectador em várias regiões.
- Foto: reprodução
Notícias do Brasil – Por décadas, o Brasil tem enfrentado uma dura realidade: a presença do crime organizado controlando territórios urbanos e rurais, impondo suas regras, criando leis paralelas e tornando o Estado, muitas vezes, mero espectador em determinadas regiões. De morros no Rio de Janeiro a fronteiras internacionais no Centro-Oeste, passando por bairros inteiros de capitais e periferias, o domínio de facções criminosas desafia o poder público. Mas por que, afinal, o Estado brasileiro, com todo seu aparato institucional, não consegue recuperar essas áreas? Para o presidente de El Salvador, Nayib Bukele, a resposta é tão direta quanto incômoda: porque não quer — ou porque está envolvido.
Em uma recente declaração que repercutiu em diversos países, Bukele fez duras críticas a governos que alegam não ter meios para enfrentar o crime organizado. Segundo ele, é inconcebível aceitar a tese de que um Estado moderno seja incapaz de enfrentar e derrotar organizações criminosas. “O Leviatã, o Estado, sempre é mais forte do que qualquer organização criminosa”, afirmou o líder salvadorenho, referindo-se à famosa metáfora de Thomas Hobbes sobre o poder soberano. “Nós demonstramos isso. Éramos o país mais inseguro do mundo, e agora somos o mais seguro do hemisfério”, disse, citando a mudança drástica no cenário de segurança pública em El Salvador.
Bukele não poupou críticas ao Brasil. Para ele, embora as facções brasileiras sejam “muito maiores” do que aquelas presentes em seu país, o Estado brasileiro também é muito mais robusto e poderoso. “Não podem controlar o território, temos que deixar essa zona para os cartéis, a outra zona para a organização criminosa, os bairros para as gangues? Não, não pode ser. Algo tem que estar errado”, questionou.
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O “erro”, segundo Bukele, estaria na relação promíscua entre o Estado e o crime. Em uma fala reveladora, quando questionou como uma facção criminosa consegue controlar territórios inteiros, ele mesmo respondeu, ao ouvir de um assessor que “eles estão dentro do governo”: “é por isso”.
Leia também: Crime organizado movimenta R$ 146,8 bilhões por ano no Brasil
Narcogoverno
Esse ponto toca em uma ferida profunda da realidade brasileira: o narcogoverno. O termo, ainda que chocante, define com precisão o fenômeno em que o tráfico de drogas influencia — ou mesmo controla — estruturas do poder político, econômico e judicial. Trata-se de uma simbiose perversa entre interesses ilícitos e instâncias formais de poder, o que fragiliza ainda mais o combate ao crime e mina a confiança da população nas instituições.
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Características de um narcogoverno:
Corrupção generalizada
Políticos, policiais, juízes e outras autoridades são comprados ou ameaçados pelos traficantes para proteger seus interesses.
Financiamento de campanhas políticas
O dinheiro do tráfico é usado para eleger candidatos que, uma vez no poder, facilitam a ação dos cartéis.
Cooptação ou eliminação de opositores
Pessoas que denunciam ou tentam enfrentar o narcotráfico podem ser silenciadas por ameaças, violência ou assassinato.
Infiltração nas instituições do Estado
O crime se infiltra nas estruturas do governo, como forças de segurança, sistema penitenciário e ministérios.
Uso do aparato estatal para beneficiar o crime
Em vez de combater os criminosos, o governo age para protegê-los, eliminar rivais ou lavar dinheiro.
Exemplos de países com características de narcogoverno:
México: Cartéis como o de Sinaloa exercem enorme poder em regiões inteiras. Há casos de governadores e prefeitos ligados diretamente ao tráfico.
Colômbia (anos 80 e 90): Com Pablo Escobar, o narcotráfico chegou a eleger políticos e ameaçar o Estado diretamente.
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Honduras e Venezuela: Também são frequentemente citados em análises sobre narcogoverno, por acusações de envolvimento de altos membros do governo com o tráfico.
O Estado ausente e a lei do crime
Nas comunidades dominadas por facções, o crime não se resume apenas ao tráfico. Ele dita toques de recolher, julga e executa “criminosos”, impõe punições a moradores, cobra taxas de comerciantes e, muitas vezes, promove assistência social mais eficaz do que a oferecida pelo poder público. A ausência do Estado — seja por negligência, corrupção ou incapacidade — abre espaço para que organizações criminosas atuem como verdadeiros governos locais.
A complexidade do problema é tamanha que, em algumas regiões, os próprios moradores se veem obrigados a aceitar a autoridade das facções, pois confiam mais em sua “justiça” do que nas forças de segurança ou na lentidão do Judiciário. É um círculo vicioso que se alimenta da desesperança e da ausência de políticas públicas estruturantes.
A teoria existe, mas falta vontade?
Segundo Bukele, não há mistério: a execução do combate ao crime pode até ter suas complexidades, mas a base teórica é simples — o Estado pode vencer o crime, se quiser. Para ele, justificar a impunidade com fatores como tamanho territorial, consumo de drogas ou pobreza é falacioso. “Países com mais consumo de drogas não entregam áreas inteiras de seu território a cartéis e gangues”, observou.
A provocação de Bukele é pertinente: por que o Brasil, com forças armadas poderosas, aparato tecnológico e orçamento bilionário, não consegue restabelecer o controle total sobre seu território? A resposta exige coragem política, enfrentamento à corrupção e prioridade absoluta à segurança pública — com inteligência, justiça e respeito aos direitos humanos.
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