Juíza alerta: violência contra animais por adolescentes é rotina em grupos online no Discord
O alerta é da juíza Vanessa Cavalieri, da Vara da Infância e Juventude do Rio de Janeiro, que estuda a radicalização de adolescentes na internet.
- Foto: reprodução
Resumo rápido
O caso da morte do cão comunitário Orelha, em Florianópolis, reacendeu o alerta sobre o crescimento da violência extrema praticada por adolescentes em ambientes digitais. Para a juíza Vanessa Cavalieri, episódios como esse não são isolados e refletem uma combinação perigosa entre uso irrestrito da tecnologia, radicalização online e ausência de supervisão familiar.
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A morte do cão comunitário Orelha, torturado por adolescentes em Florianópolis, vai além de um crime isolado e escancara um fenômeno preocupante: o aumento de atos de violência extrema cometidos por jovens e incentivados em ambientes virtuais. O alerta é da juíza Vanessa Cavalieri, da Vara da Infância e Juventude do Rio de Janeiro, que há anos estuda a radicalização de adolescentes na internet.
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Conhecido por moradores da Praia Brava como dócil e parte da rotina do bairro, Orelha foi encontrado agonizando após ser brutalmente ferido na noite de 4 de janeiro. Apesar de socorrido, o animal precisou ser submetido à eutanásia devido à gravidade dos ferimentos.
Investigação aponta envolvimento de adolescentes
A Polícia Civil identificou quatro adolescentes como suspeitos do crime. Dois deles permanecem em Florianópolis e tiveram celulares e computadores apreendidos para perícia. Outros dois viajaram para os Estados Unidos logo após o episódio e retornaram ao Brasil dias depois, devendo prestar depoimento às autoridades.
Segundo a investigação, o cachorro foi atingido na cabeça com um objeto sem lâmina, o que reforça a hipótese de agressão deliberada.
Violência que começa no ambiente digital
Para a juíza Vanessa Cavalieri, o caso revela um padrão já conhecido do Judiciário, mas ainda pouco compreendido pela sociedade. Ela afirma que a tortura de animais tem se tornado recorrente em comunidades online, muitas delas hospedadas em plataformas como o Discord, onde atos violentos são transmitidos ao vivo ou usados como forma de obter reconhecimento dentro dos grupos.
“Não seria surpresa se a perícia apontasse que esse episódio fez parte de uma dinâmica maior, com incentivo coletivo, busca por status e até liderança dentro dessas comunidades”, afirma a magistrada.
Dessensibilização e escalada da crueldade
De acordo com Cavalieri, a exposição constante de crianças e adolescentes a conteúdos extremos gera um processo de dessensibilização da violência. Com o tempo, imagens e vídeos violentos deixam de causar repulsa e passam a ser normalizados, abrindo caminho para a prática de agressões no mundo real.
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O fenômeno, segundo ela, ganhou força especialmente após a pandemia, período marcado por maior isolamento social e uso intensivo das redes digitais por jovens.
Linchamento virtual também preocupa
Apesar da indignação popular, a juíza faz um alerta sobre a exposição dos adolescentes nas redes sociais. A divulgação de nomes, fotos e endereços viola o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) e pode gerar o chamado “efeito manada”, estimulando novos atos de violência por imitação.
Ela destaca que a responsabilização deve ocorrer dentro do sistema de Justiça, sem transformar o caso em espetáculo público.
Falta de limites e supervisão familiar
Outro ponto crítico apontado por Cavalieri é o papel das famílias. Segundo ela, muitos casos semelhantes envolvem pais permissivos e ausência total de controle sobre o uso da internet. A combinação entre falta de limites e acesso irrestrito à tecnologia cria, segundo a magistrada, um ambiente propício à radicalização.
“O que vemos é uma mistura explosiva: adolescentes sem contorno familiar e com acesso irrestrito a conteúdos extremamente violentos”, resume.
Medidas socioeducativas e responsabilização
A juíza ressalta que casos de extrema violência podem, sim, resultar em internação de adolescentes, contrariando a percepção de impunidade. No entanto, os processos correm sob sigilo para evitar a reprodução dos crimes.
Ela também defende a aplicação de medidas de orientação parental aos responsáveis, obrigando pais e responsáveis a participarem de programas educativos sobre limites, supervisão digital e convivência social.
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