A história da menstruação: do Antigo Egito aos absorventes modernos
Da medicina ancestral cheia de tabus ao controle menstrual contemporâneo — uma jornada cheia de invenções, mitos e avanços sociais

A história da menstruação: do Antigo Egito aos absorventes modernos – Foto: Freepik
Curiosidades – A menstruação dura cerca de um mês e ocorre quando o ovócito não é fecundado, levando à expulsão do revestimento uterino em forma de sangue — algo raro na natureza, presente em apenas 1,28% dos mamíferos. O endométrio humano espesso atua como uma proteção nutricional à mãe e ao feto. Em muitas sociedades, a menstruação carregou tabus: para os Yurok, por exemplo, a mulher menstruada era isolada por estar “no auge da força”; na tradição judaica, seu sangue era visto como poluído.
Práticas antigas: do papiro à galena
No Antigo Egito, há quase 4 mil anos, registros como o Papiro Kahun indicam curativos vaginais feitos com terra do Nilo, mel e galena (um composto tóxico), além de remédios para dor feitos com resinas, óleo, galena e mirra, estendidos com massagem de orelha de hiena podre. Na Grécia, pensava-se que a menstruação era uma purificação — e usavam-se fiapos de pano enrolados em madeira como proteção. Aristóteles acreditava que o sangue menstrual podia manchar espelhos. Já os romanos viam esse sangue como capaz de enlouquecer cães, arruinar colheitas e causar abortos, mas também acreditavam que o toque de uma menstruada podia curar febres e mordidas de cães raivosos. Os absorventes internos com ópio persistiram em uso como analgésico até o século 20.
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Ginecologia e o estigma médico
A ginecologia ganhou impulso no fim do século 18, período marcante marcado por críticas ao corpo feminino e associado à doença ou loucura. Isso justificou uma série de experimentos e produtos “corretivos” realizados sem critérios éticos.
Surgimento dos absorventes modernos
Entre 1854 e 1915, foram patenteados 20 produtos menstruais nos EUA. Em 1896, surgiram as Lister’s Towels, primeiros absorventes descartáveis presos com cinto na cintura — bem diferentes dos que conhecemos hoje. A Primeira Guerra facilitou o uso de celulose absorvente (cellucotton), incorporado pela Kotex em 1918, durante o conflito, quando as mulheres começaram a trabalhar fora de casa.
Mary Kenner e o apagamento histórico
A inventora negra Mary Kenner desenvolveu um cinto sanitário com ajustes de tamanho e sistema de troca integrado, mas teve sua patente ignorada por empresas após descobrirem sua raça. Embora essas inovações tenham sido adotadas posteriormente pelas grandes marcas, ela nunca recebeu nenhum reconhecimento financeiro.
Absorventes internos e controvérsia
Os primeiros absorventes internos surgiram em 1931, com aplicador de papelão — depois de patenteados e vendidas pela Tampax em 1936. O produto despertou controvérsia: algumas vozes diziam ser mais higiênico, outras o associavam à perda da pureza. Mesmo assim, as vendas quintuplicaram em sete anos. Nos anos 1940, surgiu o termo O.B. (“ohne Binde”—sem bandagem), criado por uma ginecologista alemã, para designar o primeiro modelo sem aplicador.
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Outros recursos menstruais
Calções menstruais de borracha surgiram na década de 1920, mas foram impopulares. Em 1937, surgiu o coletor menstrual de borracha, proposto como solução duradoura e confortável — mas seu uso só retornaria nos anos 80, com o movimento hippie.
No Brasil, os absorventes entraram no mercado em 1930 com a marca Modess, que foi dominante por décadas. O produto se popularizou especialmente nas décadas de 1950 e 60, quando a urbanização e o trabalho feminino ganharam força.
A pílula: revolução com violência
A contracepção oral chegou na década de 1950. Os primeiros testes humanos foram realizados em Porto Rico, sem consentimento, resultando em mortes e abortos, mas considerados “bem-sucedidos” pelos médicos. A primeira pílula chegou ao Brasil em 1962. Para facilitar sua aceitação, instituíram sangramentos simulados entre intervalos de uso — técnica que evitava confrontar o tabus religiosos.
Menstruação sob ataque e revolta cultural
A partir dos anos 1990, o médico brasileiro Elsimar Coutinho defendeu a supressão da menstruação, alegando que ela era prejudicial e debilitante às mulheres. Apesar disso, muitas vivenciam ciclos serenos e significativos, expressando conexão consigo mesmas. A menstruação ainda é envolta em tabus modernos: em 1973, um anúncio de absorventes adesivos foi censurado no Brasil por sugerir vulgaridade.
O desafio da pobreza menstrual
De acordo com o Portal Superinteressante, ainda hoje, tabus escondem desigualdades: uma em cada cinco brasileiras já usou pano ou jornal por falta de absorventes. Quatro milhões de estudantes enfrentam a falta de produtos de higiene em escolas, e 27% já faltaram às aulas durante o período menstrual. Em 2022, o Brasil instituiu a distribuição gratuita de absorventes para pessoas em situação de vulnerabilidade — um passo importante para quebrar um ciclo de silêncio secular.
Por: Mayara Leite – Redatora Seo On
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