TRE-AM ignora histórico de irregularidades e mantém no poder prefeito de Envira acusado de desvio
Ivon Rates havia sido declarado inelegível por desvio de R$ 250 mil em recursos e irregularidades na aquisição de uma mini usina.
- Foto: reprodução
Notícias de Envira – A decisão do Tribunal Regional Eleitoral do Amazonas (TRE-AM) de manter Ivon Rates (PSD) no cargo de prefeito de Envira, proferida nesta segunda-feira (2), representa um grave retrocesso no combate à improbidade administrativa e à moralidade na gestão pública. Com base em uma interpretação leniente da Lei de Improbidade Administrativa, a Corte reviu sua própria decisão anterior, tomada em março deste ano, quando havia cassado o registro de candidatura de Rates com base em duas graves irregularidades apontadas pelo Tribunal de Contas da União (TCU).
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Rates havia sido declarado inelegível por desvio de R$ 250 mil em recursos destinados a obras de saneamento básico entre 2005 e 2008, e também por irregularidades na aquisição de uma mini usina de beneficiamento de açaí, no valor de R$ 103 mil, com suspeita de má-fé na aplicação dos recursos. As infrações foram consideradas insanáveis pelo TCU, e o Ministério Público Eleitoral (MPE) havia emitido parecer pela cassação do mandato do atual prefeito. No entanto, em um movimento controverso, a maioria dos desembargadores do TRE-AM acolheu os embargos de declaração da defesa de Rates e o manteve no cargo.
A reviravolta veio com o voto do juiz Cássio Borges, que sustentou que não havia comprovação de dolo específico por parte de Rates, um requisito que ele considera essencial para caracterizar a improbidade administrativa à luz da atual redação da Lei nº 8.429/92. “O mero exercício da função ou desempenho de competências públicas, sem comprovação de ato doloso, por fim ilícito, afasta a responsabilidade”, declarou o magistrado. O argumento, no entanto, escancara uma brecha jurídica perigosa que enfraquece o combate à corrupção e ignora os indícios robustos de má gestão.
Leia mais: Prefeito eleito de Envira, Ivon Rates tem candidatura cassada pelo TRE-AM
É alarmante que, em um estado marcado por tantos desafios sociais e estruturais, uma Corte Eleitoral opte por relativizar fatos graves sob o manto de interpretações jurídicas discutíveis. A decisão desconsidera não apenas o parecer técnico do TCU, mas também o posicionamento anterior do próprio TRE-AM, que, em março, havia cassado Rates por meio do voto de minerva da desembargadora Carla Reis. À época, a Corte determinou novas eleições, reconhecendo a gravidade das irregularidades e o risco à moralidade pública.
Manter Ivon Rates à frente da Prefeitura de Envira, apesar das acusações de desvio e má-fé na gestão de recursos federais, passa uma mensagem perigosa à sociedade: a de que é possível seguir na vida pública mesmo com um histórico comprometido, desde que não se consiga provar um dolo com requintes de intenção. Essa leitura excessivamente formalista ignora o contexto e o impacto social da má gestão de verbas públicas em municípios carentes como Envira, onde cada centavo mal aplicado compromete o acesso a serviços básicos.
Mais do que uma disputa judicial, trata-se de uma questão ética e de respeito ao eleitor. Ao ignorar o histórico de irregularidades e desconsiderar os alertas dos órgãos de controle, o TRE-AM fragiliza a confiança da população nas instituições democráticas e contribui para a perpetuação de práticas nocivas à boa governança. A decisão, embora legal, está longe de ser justa.
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