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Autores independentes de Manaus: vozes que constroem a literatura fora das grandes editoras

Conheça a trajetória de escritores manauaras que, de forma independente, publicam suas obras e fortalecem a literatura local

Por michael

22/07/2025 às 12:28 - Atualizado em 18/08/2025 às 10:27

Autores independentes de Manaus: vozes que constroem a literatura fora das grandes editoras

Manaus – Em Manaus, a literatura ganha novos contornos pelas mãos de autores independentes que, movidos pela paixão pela escrita e pelo desejo de compartilhar suas histórias, enfrentam desafios do mercado editorial para publicar e divulgar suas obras. Neste artigo, conheça histórias de quatro escritores que, com perseverança e criatividade, moldam uma literatura autoral que reflete tanto a diversidade cultural da região quanto as complexidades do mundo contemporâneo.

Allysson Fadel: transformando luto em narrativa e defendendo a literatura local

Allysson Fadel, 45 anos, é autor do livro Pecado em Pedaços e participou com um conto da antologia Ouija. A escrita entrou em sua vida de forma inesperada, como um meio de enfrentar o luto pela perda da mãe, durante a pós-pandemia.

“Decidi escrever para manter a mente ocupada e lidar melhor com o momento difícil.”

A trama de estreia de Allysson Fadel mistura drama e suspense e se passa durante a época da peste negra. O livro acompanha Joseph, um jovem inglês e pai de família, cuja vida sofre uma transformação radical em meio ao terror daquele período sombrio.

A história é emocionante e envolvente, surpreendendo até a última página, e mostra que o perdão nem sempre tem limites.

Apesar do talento e da força da obra, Allysson Fadel enfrentou desafios na publicação. Depois de inúmeras respostas negativas das editoras, ele encontrou uma editora do Rio de Janeiro que cuida da burocracia e impressão do livro.

“Não levo as recusas para o lado pessoal, sei que são negócios. Talvez, se eu estivesse mais próximo das editoras da cidade, teria mais oportunidades.”

Atualmente, Allysson Fadel faz parte da Academia de Literatura, Arte e Cultura do Amazonas (ALACA) e da Associação dos Escritores do Amazonas (ASSEAM), engajando-se na cena cultural local.

Sobre os eventos literários em Manaus, ele observa que, apesar da criação de espaços pela prefeitura, a literatura ainda fica em segundo plano diante de outras atrações, como shows e cosplay.

“As pessoas até comparecem, mas a literatura não é o foco principal. A divulgação poderia ser maior, inclusive em canais locais tradicionais, como a TV.”

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Aritana Tibira: literatura marginal, travesti e amazônida com a força da oralidade

Aritana Tibira, 29 anos, é uma das vozes mais potentes da nova literatura amazônida. Escritora, trans, afro-indígena, periférica e radicalmente autoral. Nascida e criada no bairro Novo Israel, Zona Norte de Manaus, ela começou a escrever ainda criança, mas foi na adolescência que a palavra se tornou refúgio e resistência diante do preconceito e das ausências. Sua escrita nasceu das margens e é das margens que ela constrói mundos.

Com formação em Letras pela UFAM e mestrado em Estudos Literários, Aritana encontrou nos fanzines, na poesia falada e na cena slam um território de pertencimento. Suas publicações são artesanais: Dejetos I, II e III, Quinta das Humildes e Caspa & 24 de Dezembro circulam como zines, mas também podem ser encontrados em e-book pela Amazon. Em breve, estreia em livro físico pela coletânea Cores da Floresta, com poemas de autoria feminina e LGBTQIAPN+.

Sua literatura está impregnada da Manaus que poucos veem: a dos becos abafados, da Zona Norte, das travestis que atravessam a noite, das drag queens bem montadas, dos ônibus lotados e do calor que não dá trégua. “A Amazônia que escrevo não é de propaganda turística. É a Amazônia urbana, periférica e transviada”, diz.

Aritana escreve por impulso, entre trabalhos e militância. Seus textos — contos, poemas, crônicas — têm como protagonistas corpos dissidentes: travestis, LGBTI+, pessoas negras e periféricas. Ela explora temas como abandono, raiva, desejo, identidade, amizade e humor, tensionando o grotesco com o poético. “Escrever sobre isso é devolver existência e complexidade pra quem sempre foi retratado como margem ou estereótipo.”

Seu conto Quinta das Humildes, por exemplo, é protagonizado por uma travesti que frequentava a antiga A2 Club, espaço icônico da comunidade LGBTQIAPN+ em Manaus. Os personagens de Aritana falam com gírias locais, andam de ônibus e habitam bairros reais da cidade. Sua linguagem é viva, vibrante, impregnada de território.

Militante e produtora cultural há mais de 10 anos, Aritana é cofundadora do coletivo de escritoras e escritores LGBTI+ Panapaná, do Amazonas, e integra iniciativas como o Casa Shaolin e o Pense Drag. Sua atuação une arte e ativismo, em feiras, eventos, oficinas e espaços de formação.

Ela aponta os desafios da invisibilidade estrutural que escritores nortistas enfrentam, agravados por sua identidade: “Ser escritora trans, preta e da periferia em Manaus é lutar contra o apagamento todos os dias. É conciliar a escrita com o corre da sobrevivência. Mas sigo porque acredito na potência do artesanal, do que vem do corpo.”

Ser escritora no Norte, para Aritana, é escrever a partir do apagamento. Ela denuncia as desigualdades estruturais que atravessam quem está fora do eixo Rio-São Paulo, especialmente mulheres trans, negras e periféricas. “A gente escreve da margem da margem”, afirma. Para ela, o desafio não está apenas na falta de visibilidade, editais e

editoras, mas também na sobrevivência diária em uma cidade ainda conservadora e violenta. Mesmo assim, Aritana escolhe resistir com palavras e afirma: “Não quero me moldar pra caber. Quero ocupar qualquer lugar levando o Norte comigo.”

Sobre a resposta do público, ela é enfática: “Às vezes dá medo se expor. Mas quando alguém me escreve dizendo que chorou lendo um conto meu, tudo faz sentido. A palavra vira companhia.”

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Para Aritana Tibira, o cenário literário em Manaus é cheio de potência, mas ainda profundamente desigual. Apesar da existência de muitos autores talentosos, falta apoio institucional. Ela aponta a escassez de editais culturais voltados para a literatura, a ausência de incentivos à escrita criativa e a carência de ações que estimulem a leitura. “Precisamos de mais amazonenses escrevendo”, afirma. Mesmo assim, ela enxerga uma nova geração vindo com força, especialmente entre mulheres, pessoas negras, indígenas e LGBTQIAPN+, que estão rompendo com o tradicional e escrevendo com o corpo e com a vivência.

E se sua obra ainda não está em vitrines de livrarias, ela define com beleza o lugar onde de fato importa estar: “Meu livro não tá na prateleira da livraria, mas tá na bolsa de uma travesti indo pro corre.”

Gedean Silva: da poesia íntima ao romance ficcional com alma amazônica

Aos 31 anos, Gedean Silva é um dos nomes que vem despontando na cena literária de Manaus com uma produção autoral marcada pelo suspense, aventura e toques de ficção científica. Nascido em Coari (AM), ele cresceu na capital e, embora tenha começado escrevendo poesias “que só ele entendia”, encontrou impulso criativo ao mostrar seus rascunhos para um colega de trabalho.
Seu primeiro romance, Passatempos Ocultos, foi lançado em formato digital e está disponível na Amazon. Inspirado por autores como J.K. Rowling, Suzanne Collins e Paulo Coelho, Gedean construiu uma trama que se passa majoritariamente em Manaus, com referências explícitas a pontos turísticos da cidade.
“Quando decidi escrever, comecei a ‘vomitar’ ideias no papel por três meses. Depois veio a parte mais trabalhosa: lapidar, excluir e adicionar o que fosse necessário. Foram seis meses de dedicação ao todo”, conta ele, que mantém uma rotina de escrever entre duas e cinco páginas por dia.
Embora sua história atual não explore diretamente manifestações culturais manauaras, Gedean revela que tentou inserir referências como o Boi-Bumbá, mas precisou cortar para não forçar a narrativa. Ainda assim, o cenário urbano local continuará a aparecer em seus próximos projetos, como Canteiro Central, conto ambientado em um terminal da cidade, previsto para o fim do ano.
Sobre o cenário literário de Manaus, ele é direto: “Pouco valorizado. Pouco instigado”. Para Gedean, eventos de grande porte, como uma Bienal, poderiam ajudar a fortalecer a cena local e aumentar a visibilidade de novos autores. “O maior desafio é atrair leitores. Fazer sua história alcançar o mundo.”
Atualmente, Gedean participa ativamente de clubes de leitura, e defende que todo escritor é, antes de tudo, um contador de boas histórias. “Só queremos que todos leiam o que escrevemos.” E se pudesse resumir sua trajetória até aqui, ele escolhe uma frase que carrega leveza e sabedoria: “O segredo para uma vida feliz é aceitar que você não tem o total controle”

Marcelo Caesar: um sonho estranho, transformado em escrita e a criação de uma literatura amazonense urbana

Marcelo Caesar, de 28 anos, é autor de O Cativeiro de Ananda, um suspense psicológico que nasceu de um sonho vívido e de um longo processo de superação com a escrita. Apesar de hoje ser formado em Letras pela Universidade Federal do Amazonas, ele lembra que, no início da graduação, enfrentava grande dificuldade com a escrita formal.

“Eu me sentia constrangido. Meus colegas precisavam reescrever os trechos que eu escrevia nos trabalhos. Foi aí que decidi mudar.”

A virada começou quando passou uma temporada em Portugal, no distrito de Setúbal. Trabalhou com traduções e mergulhou na estrutura da língua portuguesa europeia, o que teve grande impacto em seu domínio da escrita.

Mas a semente de seu primeiro livro não nasceu nos estudos e sim em um sonho intenso. Nele, duas crianças brincavam na neve quando uma era raptada por um Papai Noel. A partir dessa cena onírica, Marcelo construiu toda uma trama com início em Portugal e desfecho em Manaus, onde a personagem cresce sem saber que foi sequestrada.

“Eu quis criar uma literatura amazonense urbana. Falando da cidade, das expressões regionais, da Manaus que eu conheço e vivo.”

Após tentativas frustradas de publicação por meio de editoras — incluindo orçamentos altos com revisão e impressão — Marcelo decidiu seguir pelo caminho da autopublicação. Fez a diagramação com ajuda de um amigo, revisou o texto pessoalmente e publicou o e-book pela Amazon.

“A sensação de ver pessoas lendo e comentando foi emocionante. Principalmente quando leitores de Manaus disseram que se sentiram representados ao verem sua cidade descrita ali, com verdade.”

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Atualmente, Marcelo divulga o livro de forma totalmente independente por meio de seu Instagram.

 Mário Santos: como a escrita se tornou ferramenta de liderança e transformação

Natural de Oriximiná, no oeste do Pará, mas morando há mais de 30 anos em Manaus, Mário Santos, de 58 anos, já se sente um manauense e transformou momentos de incerteza em oportunidades criativas. Durante a pandemia, diante da escassez de clientes e da paralisação das atividades, ele decidiu canalizar seus conhecimentos em um livro. Foi assim que nasceu Empreender com Sabedoria, seu primeiro e-book publicado de forma totalmente independente.

“O processo foi longo, porque eu não tinha habilidade para diagramar um livro. Estudei por vídeos no YouTube e fui aprendendo passo a passo até conseguir publicá-lo na Amazon.”

O que começou como uma necessidade virou realização pessoal. Para Mário, a maior alegria foi poder compartilhar sua experiência com outros empreendedores por meio da escrita. E ele não parou por aí.

Seu segundo livro, Liderança Ágil, surgiu após aplicar um curso sobre metodologias ágeis. A dúvida que o guiou foi direta: Se tantas pessoas estão aprendendo a trabalhar com agilidade, quem vai liderá-las? A partir dessa inquietação, escreveu um manual prático voltado a líderes que precisam se adaptar às novas dinâmicas organizacionais.

Raízes de União é uma obra de ficção inspirada em sua vivência como instrutor de cooperativas. O livro narra a trajetória de José Francisco Firmam, um líder que decide mergulhar na realidade dos cooperados para construir, junto com eles, um projeto coletivo de sucesso.

“Depois de ouvir tantas histórias dos presidentes das cooperativas, senti que precisava dar voz a essas experiências. A ficção foi o caminho que encontrei.”

Todos os livros foram publicados como e-books, de forma independente e sem auxílio de editora. Mário estudou cada etapa do processo, da escrita à diagramação, passando pela publicação e divulgação. Atualmente, se prepara para lançar duas novas obras: Do Caos à Confiança e Papel & Arte.

Vitor Gusmão: poesia como resistência e construção de identidade

Aos 29 anos, o poeta manauara Vitor Gusmão já lançou dois livros autorais — Sentimentos e Vivências (2023) e Amor e Lamúria (2024). Embora ambos tenham sido publicados por editoras, Vitor faz questão de pontuar que a jornada até os leitores é, essencialmente, independente.

“O autor hoje precisa ser tudo: escritor, social media, empresário. A editora, muitas vezes, só presta o serviço de revisão, capa e impressão. Depois disso, é o autor quem precisa se virar para divulgar, vender, fazer o livro existir de verdade.”

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A escrita acompanha Vitor desde a infância, mas foi em 2018 que ele decidiu se dedicar integralmente à literatura. A partir de então, passou a participar de concursos e antologias, com destaque para o Festival de Cenas Teatrais de Santos, onde foi quatro vezes finalista e duas vezes campeão, e o prêmio Ecos da Literatura, em São Paulo.

O primeiro livro solo veio após vencer uma seleção da Editora Brunsmarck, com o projeto “Viva com Estilo, Espalhe Poesia”. O lançamento, em agosto de 2023, em Manaus, marcou um novo ciclo em sua vida:

“Dali em diante, minha vida mudou bastante. Conheci pessoas do meio literário, viajei para eventos, visitei escolas. Foi uma experiência transformadora.”

Além da poesia, Vitor também escreve microcontos, crônicas e literatura infantil. Seu poema Antepassados integra um livro didático de língua portuguesa do 9º ano do Ensino Fundamental, um marco importante para qualquer escritor.

Atualmente, ele se prepara para cursar Letras, buscando aprimorar ainda mais sua escrita. Paralelamente, trabalha em seu próximo projeto: um livro infantil previsto para este ano.

“A gente precisa estar sempre estudando, buscando crescer. Eu acredito que posso entregar obras ainda melhores. E quero fazer isso.”

Desafios, autonomia e o futuro da literatura autoral em Manaus

As histórias de Allysson, Aritana, Gedean, Marcelo, Mario e Vitor revelam os contornos de uma realidade comum entre autores independentes: a necessidade de acumular múltiplas funções, do processo criativo à publicação e divulgação, muitas vezes sem apoio das grandes editoras. Essa autonomia, embora desafiadora, permite a construção de uma literatura que reflete identidades e experiências locais com autenticidade.

Por outro lado, a dificuldade em conseguir espaço em eventos culturais e nas editoras tradicionais mostra que ainda há um caminho a ser trilhado para que a literatura regional e independente conquiste maior visibilidade e valorização.

Mas essas vozes autorais seguem firmes, insistindo em contar suas histórias, em ampliar o repertório literário e em criar uma cena que dialoga com Manaus, com o Brasil e com o mundo, sem depender das fórmulas prontas do mercado editorial.

Veja também: Literatura e o hábito de ler: como a leitura transforma vidas e fortalece a mente

Por: Mayara Leite – Estudante de Jornalismo.

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