Protesto do povo Munduruku bloqueia Blue Zone da COP30 e expõe impasse entre governo Lula e povos indígenas
Manifestantes exigem reunião com Lula e criticam projetos que avançam sobre a Amazônia.
- Foto: Lucas Trevisan / TV Liberal
Notícias do Pará – O protesto realizado pelo povo indígena Munduruku interrompeu, na manhã desta sexta-feira (14), o acesso à Blue Zone — área mais restrita da COP30, em Belém (PA). O bloqueio, iniciado por volta de 5h30, impediu a entrada e saída de delegações e autoridades credenciadas, e forçou o governo federal a negociar diretamente com as lideranças para liberar o local.
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A manifestação, pacífica e organizada, teve um objetivo claro: exigir que as decisões climáticas discutidas na COP incluam representantes dos povos originários, principais impactados pelas políticas ambientais, energéticas e de desenvolvimento debatidas no evento. A liderança Alessandra Munduruku deixou explícito que o recado não era simbólico. “Ninguém entra e ninguém sai. Porque ninguém vai para brincar. Ninguém vai tirar selfie. É o nosso corpo que está na negociação”, afirmou.
Mais um dia que começa com protesto dos povos indígenas na COP30.
"Chega de usar a nossa imagem pra dizer que é sustentável!"Lideranças Munduruku bloquearam a entrada da Zona Azul, onde ocorrem as negociações da COP30. Eles denunciam que projetos avançam na região sem consulta… pic.twitter.com/QhmyuFRDGY
— Fernanda Melchionna (@fernandapsol) November 14, 2025
O protesto ganhou força com críticas duras à ausência de representantes indígenas nas mesas de decisão da conferência. Enquanto chefes de Estado e ministros discutem metas de redução de emissões e investimentos verdes, os Munduruku denunciam que projetos apresentados como sustentáveis continuam devastando suas terras e ameaçando o modo de vida tradicional. “Já chega de usar a nossa imagem para dizer que é sustentável, de bioeconomia que está matando a nossa floresta”, disse Alessandra, criticando também a falta de serviços básicos nas aldeias e os impactos do garimpo, que contamina rios com mercúrio.
Entre as reivindicações apresentadas ao governo brasileiro, os indígenas pedem a suspensão imediata de todos os projetos de desenvolvimento na Amazônia. Isso inclui mineração, exploração madeireira, perfuração de petróleo e a construção da nova ferrovia projetada para escoar produção agrícola e mineral. Para as lideranças, essas iniciativas aprofundam conflitos territoriais, ampliam a presença de empresas privadas em áreas sensíveis e colocam em risco florestas e rios essenciais para a sobrevivência dos povos originários.
Com o bloqueio mantendo autoridades e funcionários impedidos de avançar para o centro das negociações, representantes do governo federal se mobilizaram. Por volta das 9h30, após acordo para uma reunião privada, a entrada da Blue Zone foi liberada. Participam do encontro o presidente da COP30, André Corrêa do Lago, a ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, e a ministra dos Povos Indígenas, Sônia Guajajara. As lideranças insistiam em um diálogo direto com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), mas ele não estava em Belém.
O episódio expõe uma fratura difícil de ignorar: enquanto o governo brasileiro busca consolidar a imagem de liderança climática internacional, povos indígenas denunciam contradições entre o discurso ambiental e os projetos aprovados no território amazônico. O protesto dos Munduruku, ao travar a principal área da COP30, forçou a conferência a olhar para dentro — para a floresta, para os conflitos, e para aqueles que, há décadas, alertam sobre o custo humano da destruição ambiental.
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