Especialistas analisam PL da Anistia em meio a embates no Congresso e no Judiciário; confira
O AM POST ouviu especialistas que analisaram os impactos da proposta.
- Arte: Luiza Araújo/Portal AM POST
Notícias de Política – O debate sobre o Projeto de Lei (PL) da Anistia, que pretende beneficiar investigados e condenados pelos atos golpistas de 8 de janeiro de 2023, segue acirrado. O Portal AM POST ouviu especialistas que analisaram os impactos da proposta, destacando riscos jurídicos, políticos e eleitorais caso a medida seja aprovada.
O advogado Sérgio Bringel, especialista em Direito Eleitoral e Político, afirmou que existe um risco muito grande do PL ser judicializado. Ele destacou que parlamentares da base governista já sinalizaram a possibilidade de acionar o Supremo Tribunal Federal (STF), e que a Corte também demonstra interesse em frear o avanço da medida.
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“Risco muito grande. Alguns parlamentares da base aliada do governo já deram sinais acerca da possibilidade de acionar o Supremo Tribunal Federal em caso de aprovação do PL. Por outro lado, o próprio STF já deu sinais acerca de seu interesse em brecar o avanço da matéria”, disse Bringel.
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Bringel também apontou que há questionamentos sobre a compatibilidade da proposta com a Constituição, especialmente com o artigo 1º, que estabelece o Estado Democrático de Direito como fundamento da república brasileira.
“Existe uma corrente teórica de Direito Constitucional que diz que o PL da anistia não guarda compatibilidade com o Art. 1º da Constituição da República, isso é, com o dispositivo que estabelece como elemento fundante da república brasileira o estado democrático de direito. Na visão desses teóricos, acredita-se que a Constituição não comporta anistia contra crimes praticados em desfavor desse Estado democrático de direito”, explicou.

O advogado Sergio Bringel (Reprodução)
Em termos práticos, Bringel observou que a aprovação do PL impactaria todas as modalidades de anistia discutidas, incluindo aquelas amplas e irrestritas, levando à revisão de penas de condenados pelo STF.
“Todas as modalidades de anistia que vêm sendo discutidas – seja ela ‘anistia light’ ou aquela ampla e irrestrita – importariam em revisão de pena para os condenados pelo Supremo Tribunal Federal”, afirmou.
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Apesar da tramitação em regime de urgência, Bringel acredita que não há clima político para aprovação da proposta. Segundo ele, líderes do Senado já indicaram que o projeto não possui força na Casa, o presidente da República manifestou intenção de vetar e ainda existe o risco de controle de constitucionalidade pelo Supremo.
“Eu penso não haver clima político para a anistia ser aprovada. Primeiro, as lideranças do Senado já deram sinais de que o projeto não tem força na câmara alta do parlamento, depois, o próprio presidente da república informou de antemão seu interesse em vetar o projeto e por fim, ainda há o risco de controle de constitucionalidade pelo Supremo. Tudo isso contribui para a perda de força do projeto da anistia. De qualquer forma, porém, a política brasileira é uma caixinha de surpresas. Aguardemos os próximos capítulos”, concluiu.
Contradição à razão da democracia
O advogado e profissional de Relações Institucionais e Governamentais, Efraim Felix, compartilha da visão de que o PL enfrenta obstáculos significativos. Segundo ele, a proposta pode ser questionada no STF, pois crimes contra a humanidade e contra o Estado Democrático de Direito não poderiam ser alcançados pela anistia sem ferir normas constitucionais e internacionais.
“Sim, o PL da Anistia pode ser questionada no STF. Há diversos julgados do STF que demonstram o entendimento de que crimes contra a humanidade e contra o Estado Democrático de Direito não podem ser alcançados pela anistia, em consonância com o Direito Internacional. Permitir que crimes contra o Estado Democrático de Direito sejam alcançados pela anistia seria uma contradição à própria razão de existir da democracia e estimularia novas tentativas de golpes. Seria como se fosse desnecessário existir a tipificação penal dos crimes contra o Estado Democrático de Direito”, explicou Felix.
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Ele também destacou que a forma ampla e subjetiva da proposta poderia violar princípios de moralidade e igualdade, permitindo que o STF a declare inconstitucional.
“A anistia, da forma como está proposta no PL 2162/23, é ampla e subjetiva, o que pode ser visto como uma violação aos princípios da moralidade e da igualdade, entre outros. Isso permitiria ao STF declará-la inconstitucional no cumprimento de sua função de controle de constitucionalidade”, disse.
Felix acrescentou que, apesar da urgência, há espaço político para que o PL seja barrado ou enfraquecido, mesmo com a aprovação do requerimento de urgência.
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O advogado Efraim Felix (Arquivo pessoal)
“Sim, há espaço político para que o PL da Anistia seja barrada ou enfraquecida, mesmo com a aprovação do requerimento de urgência. A urgência agiliza a tramitação, mas não garante a aprovação. Apesar de a urgência ter sido aprovada, a proposta ainda precisa ser votada no plenário. Não há consenso sobre essa matéria nem na Câmara nem no Senado. A falta de consenso, a pressão da sociedade civil e as manifestações públicas de membros do Poder Judiciário podem enfraquecer o apoio necessário para a aprovação”, explicou.
Polarização
Efraim Félix também alertou para o impacto político e eleitoral do PL, que poderia reduzir a credibilidade do Legislativo e gerar descontentamento do eleitorado em 2026, com aumento da abstenção, votos de protesto e polarização.
“A aprovação do PL da Anistia poderia ter um impacto negativo na credibilidade do sistema político e na relação com o eleitorado em 2026. A percepção é que o Legislativo atua mais uma vez de forma ‘eleitoreira’, trabalhando em causa própria, desconsiderando valores republicanos que devem nortear a atuação dos parlamentares. Para as eleições de 2026, isso pode se traduzir em um aumento da abstenção, votos de protesto, sensação de impunidade e polarização, resultando, ainda, em violência política”, concluiu.
Felix destacou ainda que a pressão da opinião pública pode influenciar o destino da proposta no Congresso:
“A pressão da opinião pública pode, sim, alterar o rumo da proposta no Congresso. Embora o peso das críticas varie, manifestações nas redes sociais, editoriais de jornais e a mobilização de entidades civis podem influenciar a decisão de parlamentares. Os políticos, especialmente aqueles que buscam a reeleição, costumam ser sensíveis à repercussão de suas ações. Se a rejeição ao PL se tornar massiva e organizada, muitos deputados e senadores podem mudar sua posição para evitar desgaste político e prejuízo nas urnas. A mobilização contra o PL da Anistia é uma oportunidade clara de como a pressão social pode atuar como um freio a propostas impopulares, reforçando a importância da participação cidadã na fiscalização das ações dos políticos detentores de mandato”.
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