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Como conheci André Vianco e sua forma peculiar de entender o espiritismo

Por Hugo Guimarães

14/11/2015 às 12:54

“O alívio para o coração atormentado está aqui”

O lugar não era grande, mas com livros cobrindo cada centímetro de parede, parecia uma junta entre o fim do mundo e o começo. Fica em uma esquina de um bairro chamado Kobrasol, um sebo que praticamente nos convida a se perder por ali. Confesso que não tinha muitas ideias para a coluna dessa semana, e a pressa entre cruzar a cidade de Florianópolis de ponta a ponta e chegar a tempo da minha aula de estágio quase me fez recusar o convite.

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Eis que entro e, entre uma estante e outra, me demoro um pouco mais na seção de Literatura Brasileira, na qual encontro um livro amarelo, um tanto estranho por ter o nome de André Vianco na lombada, um dos escritores de fantasia mais populares do Brasil. Admito que nunca tive contato com nada dele, mas sempre ouvi muito bem sobre suas histórias vampirescas e o jeito singular com o qual trabalha com os elementos dessa mitologia, então por isso que o livro me pareceu tão estranho: a sinopse não mencionava nada disso.

Essa estranheza me fez perceber que já estava na hora de conhecer melhor o sr. Vianco, talvez até com certo atraso. O livro em questão se chama “A Casa” (2002), e eu ainda não tinha ouvido falar desse, mesmo dos amigos que sempre me recomendaram o trabalho do autor. Achei melhor, assim iria conhecer um escritor novo sem nenhuma ideia prévia do que se tratava o livro.

Para minha surpresa, traz uma narrativa simples, bem real, carregada de uma melancolia dolorida, desenvolvendo de maneira nem sempre sutil vários conceitos espíritas. “A Casa” reúne quatro personagens atormentados pelo próprio passado, cada um com um remorso particular que os tem envenenado por bastante tempo. Nenhum deles se conhece, o que é muito bacana, pois o foco acaba por recair na curiosidade por conhecer o drama pessoal de cada um, já que, desde os capítulos iniciais, fica bem claro que a casa em questão irá uni-los de alguma forma, pois todos recebem um cartão misterioso com um endereço e a promessa de que “O alívio para o coração atormentado está aqui”.

Rosana é uma dessas personagens, mulher que sofre com ataques de ansiedade controlados pelo uso constante de medicamentos pesados. Uma esposa infeliz, Rosana decidira cometer traição em uma tentativa desesperada de se sentir valorizada, mas, descoberta, é abandonada e dias depois descobre que o marido foi vítima de um acidente de trânsito. Já Leon, expulsa de casa por ser lésbica, acaba escrava do uso de drogas, sempre remoendo o fato de não ter comparecido ao enterro do pai que a expulsara e feito companhia à mãe, que, no tempo presente da narrativa, também já se fora.

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Com Ismael, que sempre discutira com o pai pelo mesmo não partilhar de suas ambições, se afunda em trabalho para lidar com o fato de que a última conversa que tivera com ele foi uma discussão definitiva. Hélio, o último dos protagonistas, tem que lidar com o alcoolismo provocado pelo desejo de ter sido mais paternal com a filha doente, que acabara por cometer suicídio em função de seus maltratos.

O grande trunfo de Vianco com esse livro foi dar espaço para que as histórias fossem construídas, sem apressar o premeditado encontro entre os quatro. O livro é eficaz em nos envolver no sofrimento de cada um deles, tão imersos em seus infernos que todos recorrem ao suicídio como meio de fuga, sem, por intervenção do destino, obter sucesso.
É nos dado tempo para que simpatizemos com a dor das personagens, para que entendamos o quanto é insuportável a jornada que cada uma delas construiu para si, e o quanto estão desesperadas para encontrar um fim definitivo.

Contudo, na hora derradeira, cada um lembra do convite que lhes chegou de forma misteriosa, prometendo alívio.
Da mesma forma que eu quase evitei entrar naquela livraria por força da rotina, aquelas quatro pessoas evitam como podem recorrer ao método desconhecido que o convite oferecia, sempre fazendo insinuações às crenças espíritas que sustentam a tese do livro. Esse ponto me incomodou um pouco, a falta de sutileza, a facilidade com que é entregue ao leitor os pilares do livro, nada que não seja perdoável ao considerar o quanto Vianco foi cuidadoso ao tratar de questões de natureza tão delicada.

O que posso dizer sobre o que as personagens descobrem na casa sem entregar detalhes maiores do enredo (e, diga-se, fiquei bem interessado na reviravolta que a narrativa de Leon teve, fugindo ao trajeto um tanto previsível que os demais tiveram), é que, acima de tudo, Vianco nos traz uma história com uma mensagem forte: se já não lhe resta chance de perdoar alguém, perdoar a si mesmo pode ser também uma força redentora.

Particularmente, por gostar de uma leitura mais pesada, a temática espírita normalmente me causa certo estranhamento quando oferece suas doses concentradas de paz e tranquilidade, mas acho que cabe aqui um pequeno relato pessoal: vim passar alguns meses em Florianópolis por motivos de estudo, uma cidade onde eu não conhecia nada e ninguém, e quando você se envolve em uma experiência na qual tem que se conhecer melhor, depender menos dos outros (estando a um país de sua zona de conforto) e, consequentemente, ser um pouco mais tolerante e paciente consigo mesmo, uma mensagem como essa talvez possa cumprir a mesma promessa de alívio que fizera àqueles personagens.

Longe de querer descrever “A Casa” como uma peça de autoajuda, eu diria que é uma leitura que me fez querer conhecer mais do trabalho de seu autor, pois, mesmo que não seja um livro que normalmente eu leria, certamente era o tipo de livro que eu precisava.

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Este conteúdo pode ter sido produzido com o apoio de ferramentas de inteligência artificial, utilizadas para auxiliar na pesquisa, organização e estruturação do texto. Todo o material é revisado, editado e validado pela equipe editorial do AM Post.

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